Urbanidade

Dizem alguns que BH é um ecúmeno, um desses lugares para onde todos afluem por ser a capital.

Agora contemplo a minha cidade e me recordo do filósofo cujos dizeres estavam escritos no metrô de Barcelona: “Nasci em Atenas, mas não sou ateniense nem sequer grego, sou um cidadão do mundo”. Como tese humanista o dito é insuperável. Mas há a ubiquidade. “Ubi”, radical latino, indica local, lugar. Estou “ubicado” numa “urbe” nomeada “BH”. Contemplo a minha cidade e vejo os buracos, nas ruas estreitas, continuativas de outras, mais largas, sitas na Avenida do Contorno. Vejo uma avenida de ligação entre bairros, mais comercial do que residencial, tornada ridículo beco interiorano, onde pessoas andam e correm, aspirando gás carbônico e muito alcatrão. Nas ruas os carros brigam entre si e contra as pessoas, as buzinas torturam e não há soluções. A compreensão do aqui e do agora em Belo Horizonte, onde se desenvolvem nossas circunstâncias, ora apontam para a revolta, ora para a resignação. Muita gente, centenas, ao sol, na chuva, esperando ônibus, esperando Godot, a culpa é dos nossos pais e avós? O que devemos fazer para melhorar esses costumes? Em Roma, houve quem dissesse, lamentando a perda de um passado austero e feliz: Ó tempus, ó mores”! Nós não precisamos disso! Somos uma cidade cujos cidadãos aqui estão há menos de quatro gerações. Viemos de muitos lugares, a maioria de cidades menores, com poucas ruas, raros carros, uma moralidade de burgo pequeno, a visão matreira das minas e o viver simples dos campos gerais.

Dizem alguns que BH é um ecúmeno, um desses lugares para onde todos afluem por ser a capital. Reunião de multidões vindas de todas as partes das minas e dos gerais, daí a grande vila, fechada, interiorana, acanhada, inimiga dos grandes gastos, pacto mudo de gente prudente, avessa a obras vistosas. Isso entre os mais pensantes, enquanto as pobrezas afluíam para os morros, as baixadas, as aguadas, o entorno das fábricas na Contagem das abóboras e nos morros altos para os lados de Sabará ou nos contrafortes da Serra do Curral. Quando os olhos finalmente se abriram, viram uma metrópole acuada, envolvida por um enxame de bairros caóticos, feios, despidos de planejamento, um povão anódino, confuso, já perdidos os valores paroquiais da honradez, modéstia, religiosidade e senso familiar. A desordem que a cidade exibe reflete a desordem dos valores antigos pisados pela absorção negativa dos valores da modernidade expostos nos meios de comunicação.

Lugar mais adequado inexiste para ilustrar a tese da “coexistência do não coetâneo”: existência num mesmo lugar de hábitos, coisas e instituições de outros tempos. Aqui na aldeia grande há camadas de tempo. Quando Juscelino criou a Pampulha e traçou uma avenida ligando-a ao Centro da cidade, a construção vinha no sentido bairro-Centro com quatro pistas. À altura do viaduto São Francisco, ela passou a ter somente duas. Terminara o mandato do homem de visão. Seu sucessor, à guisa de prudente, amesquinhou o traçado e assim nasceu a avenida mais feia da capital. O inconsciente das pessoas indicava nela construções baratas, galpões, subcomércio, a prever o alargamento, a expropriação, não, porém, a indenização devida.

Os prefeitos e seus prepostos, depois de feita a capital com ruas largas, conluiados com os “fazedores de loteamentos”, autorizaram bairros novos à moda antiga: passeios de meio metro, ruas estreitas. Se param carros nas duas calçadas, outros carros não passam, sem praças ou jardins. Vê-se isso não em lugares distantes. Vê-se no Anchieta, no Cruzeiro, no Sion, no São Pedro, em Santo Antônio especialmente, quando despenca para a Prudente de Moraes. Vê-se na Vila Paris. Escapa a Cidade Jardim, que deveria ser o padrão. No começo, era a Cidade Vergel, hoje “Cidade Babel”. Antes, dentro da Avenida do Contorno, as ruas eram largas. Fizeram-nas depois estreitas ao desbordarem do projeto original. À medida que a cidade crescia, as ruas diminuíam, um fenômeno urbano e mental espetacular, somente ultrapassado quando fizeram o viaduto entrecruzado da Lagoinha, unindo em seu estreito leito duas avenidas de entrada a desembocarem em duas saídas estreitas. Claro que cruzamentos, engarrafamentos, retenções e batidas iriam ocorrer lá em cima. Era viaduto para reses, não para carros, como no interior. Coexistência do não coetâneo. A solução foi pôr muros no meio da via elevada. As novas gerações nos salvarão da mediocridade. Elas pensam grande e diferentemente.

Dignas de encômios três administrações: a de Juscelino Kubitschek, que tentou modernizar a cidade; a de Hélio Garcia, que murou o Arrudas (faltou fazer logo o Bulevar); e a de Aécio Neves, o governador que sacudiu a cidade, dando-lhe ares de verdadeira capital, unido ao prefeito Fernando Pimentel. Por último, mas não menos importante, um aviso: da próxima vez que meus pneus estourarem numa minicratera, vou requerer um laudo e processar a prefeitura, nem que a ação dure um século!

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