Será a próxima guerra de secessão?

Trump estimula a violência desde sua primeira disputa pelo poder, e não a evita agora

Lendo comentaristas americanos traduzidos por Rachel Werszavwaki, a capital dos Estados Unidos vive agora maior tensão do que, talvez, em qualquer outra época, desde as vésperas da Guerra de Secessão, em 1860. A cidade estava nervosa durante Watergate, é claro. Mas por mais que Richard Nixon tenha posto o sistema constitucional à prova, como advogado que tinha trabalhado no governo por décadas ele reconheceu que há limite que nem um presidente ousa ultrapassar.

E agora, com o presidente Donald Trump, a primeira-dama e um destacado assessor testando positivo para a COVID-19, há mais incerteza em Washington do que em qualquer outro período da história contemporânea.

Rompendo imprudentemente precedentes e normas, Trump tentou sistematicamente derrubar qualquer obstáculo ao seu comportamento. Ele insiste que o artigo 2º da Constituição americana “me dá o direito de fazer o que eu quiser”. E seu ponto de vista é respaldado pelo ministro da Justiça, William Barr, que é o tipo de comandante da fiscalização do cumprimento da lei que exerce a fidelidade em primeiro lugar a Trump.

Aliados do adversário eleitoral Joe Biden discutem como evitar a intromissão dos republicanos nos resultados e como obrigar o presidente a deixar a Casa Branca caso ele se recuse a sair. A necessidade de levar essa assombrosa possibilidade a sério é um sinal do quanto as coisas se deterioraram nos EUA, ao nível de uma república bananeira da América Central, tipo Nicarágua, talvez até menos.

Com sorte, não se usarão armas de verdade. Mas Trump estimula a violência desde sua primeira disputa pelo poder, e não a evita agora. Seu apelo no primeiro debate entre candidatos a presidente aos “Proud Boys”, um violento grupo de direita de supremacia branca, a que “recuem e fiquem de prontidão”, enredou a Casa Branca em esforços para sanear essa deplorável declaração.

Recente revelação do The New York Times deixou claro por que Trump tentou freneticamente manter seu Imposto de Renda em sigilo: ele pagou US$ 750 em impostos federais sobre a renda tanto em 2016 quanto em 2017, e nada por muitos anos antes dessas datas. A reportagem do Times arrancou a máscara populista de Trump e pôs a nu a total falsidade dos seus argumentos, alguns até cínicos.

A matéria do Times também mostrou que, como se suspeitava em amplos círculos, Trump recebeu ajuda financeira de países autoritários, como Turquia e Arábia Saudita.

E Trump, segundo relatos, teria externado sua própria hipótese de que foi beneficiado pelos oligarcas russos a pedido supostamente de Vladimir Putin.

Muitos observadores advertem que a dívida de Trump para com países estrangeiros faz dele uma ameaça à segurança nacional. Supostamente, Trump assumiu mais de US$ 400 milhões em dívidas que vão vencer nos próximos anos; não se sabe onde ele achará esse dinheiro.

Embora Biden tenha oferecido conteúdo e, naturalmente, não se tenha abaixado ao nível de Trump, ele transmitiu a envergadura e o senso de autoridade que as pessoas desejam de um presidente. Ao chamar Trump de “palhaço” e mandá-lo “calar a boca”, Biden mostrou que ele também consegue ser durão. Todavia, toda essa degradação é inédita!

A má vontade de Trump de alcançar círculos que vão além de sua base da ala direita, insuficiente para elegê-lo, também põe em questão sua destreza política, e é um dos muitos motivos para pôr em dúvida sua inteligência básica, mas uma coisa sobre o presidente ficou agora mais clara do que nunca: a fim de se perpetuar no poder, Trump está pondo a Constituição à prova de maneira sem precedentes.

Elizabeth Drew, uma jornalista lotada em Washington e autora, mais recentemente, de Washington Journal: Reporting Watergate and Richard Nixon’s downfall, acha, todavia, que a maior democracia, em termos de longevidade, pois os negros continuam como cidadãos de 2ª classe, assim como os latinos pobres, irá se sair bem de toda essa confusão.

Trump é, curiosamente, um tipo aparentado com os caudilhos sul e centro-americanos, cada vez mais raros, numa típica inversão histórica entre as civilizações ibéricas e anglófonas que vieram para o chamado Novo Mundo, fatigados com os generais e monarquiais europeias do passado, guardadas as diferenças devidas.

Os da Península Ibérica vinham como guerreiros, eram quase todos homens. Ingleses, galeses, irlandeses, escoceses migravam com famílias, de mala e cuia. Isso fez muita diferença! Hoje já não faz mais! E quando as 13 colônias iniciais e independentes, sob supervisão inglesa, se encheram de gente, começou a marcha para o oeste e o genocídio das tribos indígenas que multimilenarmente habitavam as florestas e pradarias da América do Norte, daí os filmes de faroeste, nos quais colonos eram os heróis e os índios os inimigos que deviam morrer. O cinema americano dá-nos uma imagem superior daquele país. Mas é o mais violento do mundo, o segundo em número de encarcerados e ativamente racista.

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