Reflexões sobre a nossa fé

A fé passa por cima de tudo, mas num processo judicial ou histórico os evangelhos não convencem leitores, juízes e historiadores imparciais

Jesus nasceu judeu – em região periférica da Judeia (a Galileia ficava pra lá da terra dos samaritanos) – e falou aos judeus, inserido no caldo de cultura desse povo. De repente, torna-se um pregador visionário e apocalíptico, que se lança contra o judaísmo estabelecido e legalista de seu tempo. Conhecia as escrituras em hebraico e nada de grego ou latim (sua língua era o aramaico).

Detestava as diferenças de classe entre os fariseus e saduceus. Era ebionista, ou seja, a favor dos pobres e desprotegidos, além de propugnar o abandono da riqueza, que devia ser partilhada entre todos. A parábola do jovem rico deixa isso bem claro, assim como o sermão da montanha. Pedia a todos que abandonassem pai e mãe, a família, os afazeres cotidianos e o seguissem, pois esse mundo estava prestes a acabar e logo viria o Pai e o reino dos céus com suas bem-aventuranças.

Reflexões sobre a nossa fé

Para manter essa mística mensagem eram necessários dois eventos: o primeiro, a prova de que Jesus fosse o Messias redentor. Uma ressurreição poderia dar-lhe credibilidade (a morte infamante na cruz romana fora um grande choque); o segundo é que o apocalipse – o fim do mundo – ocorresse ainda no curso da geração dos seus contemporâneos. A ressurreição deveria ser apoteótica, tanto quanto a aparição de Javé no Horeb. Mas isso não aconteceu.

A prova dessa ressurreição é tortuosa. Paulo é o único que alega ter visto Jesus ressuscitado, embora nem sequer o conhecesse pessoalmente. Na 1ª Carta aos Coríntios (15:8) – aos judeus helenizados lá estabelecidos –, diz que depois de Jesus ter aparecido, “por ouvir dizer”, a Cefas (Pedro) e em seguida aos “doze” e a “todos os apóstolos”, emenda que ainda apareceu a uns 500 crentes (15:3-8). Paulo não relata como se deu o seu encontro com Jesus (a queda do cavalo a caminho de Damasco é lendária, pois o próprio Paulo não a menciona). Paulo dá a entender que foi um encontro místico: “O evangelho a mim anunciado não o recebi nem o aprendi de homens, mas por revelação de Jesus Cristo” (Gálatas 1:11-12). Em Coríntios (12:2), procura escorar ainda mais a sua autoridade, posta sob suspeita por Tiago, irmão de Jesus, em Jerusalém.

Marcos diz que Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, “entrando no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, usando uma veste branca”, que os avisa: “Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis, como ele vos disse”. “E saindo apressadamente, fugiram do sepulcro, cheias de medo e espanto. E não disseram nada a ninguém, porque tinham medo.” (Marcos, 16:5-8). Em Marcos, portanto, o que se vê é um anjo guardião vestido de branco, não há aparição alguma do ressurreto.

Em Lucas, os anjos já são dois, e as mulheres obedecem aos anjos. Contam tudo aos “onze” e a todos os outros (quem?). Mas os apóstolos tomaram as mulheres por loucas. “Aquelas palavras pareciam delírios e não acreditaram” (24:3-11). Segundo Lucas, uma aparição a dois discípulos dar-se-á na estrada de Emaús. Contudo, o relato fala de um andarilho. Somente mais tarde passam a imaginar que se tratasse de Jesus, quando o estranho repete gestos e palavras da última ceia.

Em Mateus, as mulheres são apenas duas, Maria de Magdala, sempre presente e fiel, e “a outra Maria”. O anjo volta a ser um, em vez de dois, como em Lucas. Agora já não há medo. “Com temor e grande alegria” as mulheres correm a dizer aos homens para tomar o rumo da Galileia. E o próprio Jesus vem ao encontro deles dizendo “saúdo-vos” e eles “lhe caem aos pés” e o adoram (28:8-9). A primeira aparição, de fato, parece ser às duas mulheres. Os onze que foram para a Galileia, de fato, se prostraram perante o ressurreto, “mas alguns duvidavam” (28:16-17).

No evangelho de João, o que foi redigido por último, a primeira aparição é para Maria Madalena, no próprio sepulcro, mas esta parece não tê-lo visto. “Voltou-se e viu Jesus, que estava ali em pé, mas não sabia se era mesmo Jesus. Pensou que fosse o guardião do jardim” (20:14-15). Mas que jardim? O túmulo era escavado na rocha. Jesus aparece depois aos discípulos. Mostrou-lhes “as mãos e o lado”, no que não acreditou o ausente Tomé. “Oito dias depois (…) veio Jesus e convenceu Tomé a tocá-lo com as mãos” (20:24-27). João relata ainda outra aparição aos discípulos no Lago de Tiberíades. Mas “os discípulos não perceberam que era Jesus. Contudo o ‘desconhecido’ lhes dá instruções de pesca e eles pescam 153 grandes peixes” (21:1-13). Àquela altura já sabiam bem que era o “Senhor”.

Lucas também tem uma história sobre peixes (24:37-43). Lucas é autor, também, dos Atos dos Apóstolos. E ali ele fornece relato diferente. “No meu primeiro livro já tratei de tudo que Jesus fez e ensinou até o dia em que, após instruir os apóstolos, ascendeu aos céus. Ele apareceu vivo para eles, depois de sua paixão, e não ordenou a ninguém afastar-se de Jerusalém.” Ora, a ordem é oposta àquela do anjo do evangelho de Marcos que ordenava fossem para a Galileia…

Como se vê, as narrativas são inteiramente incompatíveis. E todas destoam de Paulo: “Apareceu a Cefas e em seguida aos doze. Depois para mais de 500 irmãos de uma vez”.

A fé passa por cima de tudo, mas num processo judicial ou histórico os evangelhos não convencem leitores, juízes e historiadores imparciais. Importa mensagem de amor, o resto é literatura, ademais imprecisa.

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