O “segredo chinês”

Estamos no meio de uma pandemia global e as duas potências mundiais trocam insultos e culpam uma à outra feito crianças, em um jogo que não vai salvar nenhuma vida

Nada melhor do que a tradução de artigo do Washington Post: “Donald Trump agora nos diz que a China é responsável pelo caos que o coronavírus está causando no mundo. Ele suspendeu o financiamento à OMS por tomar o partido da China e manter o problema em segredo. Para avaliar essas alegações, devemos ter em mente uma mensagem publicada pelo presidente no Twitter em 24 de janeiro. ‘A China tem trabalhado duro para conter o coronavírus. Os EUA agradecem muito os esforços e a transparência. Tudo vai dar certo’, escreveu Trump. Vale dizer que a China não escondeu nada; quando muito, se atrasou 16 dias.

Àquela altura, o que o mundo sabia do vírus? Um dia antes, a OMS alertou que ‘todos os países devem se preparar para a contenção, incluindo vigilância ativa, detecção antecipada, isolamento e gestão de casos, rastreamento de contatos e prevenção da disseminação’. Naquele momento, relatos do vírus estavam em todo o noticiário. A China tinha anunciado a transmissão entre humanos e começado a fechar a província de Hubei.O "segredo chinês"

Quanto ao governo americano, em 18 de janeiro, o secretário de Saúde, Alex Azar, tinha informado Trump a respeito do perigo. Em 24 de janeiro, havia dois casos confirmados nos EUA. Em 27 de janeiro, o Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) emitiu um alerta de nível 3, sugerindo que fossem evitadas as viagens não essenciais à China. No dia 29, Trump publicou no Twitter: ‘Acabo de fazer uma reunião a respeito do coronavírus na China com todas as nossas agências que também trabalham em parceria com a China’.

Naquele mesmo dia, um dos assessores em que Trump mais confia, Peter Navarro, escreveu um memorando alertando para a possibilidade de a pandemia matar até meio milhão de americanos. Navarro alertou que, de acordo com os relatos chineses, o vírus era mais contagioso que a gripe comum, mais semelhante à peste bubônica ou à varíola. No dia seguinte, 30 de janeiro, a OMS declarou uma emergência global de saúde pública. Horas mais tarde, Trump garantiu: ‘Estamos trabalhando com a China. Acreditamos que o fim dessa história será muito bom para nós’.

Afinal, Trump dizia a verdade a respeito da China nessa época, ou está dizendo agora? Que fique bem claro: em relação à COVID-19, a China escondeu o jogo, e a OMS não pressionou o bastante. As autoridades de Wuhan logo souberam da doença, mas optaram por minimizar os temores a respeito e castigar os médicos que a denunciavam. Pequim manteve um rigoroso controle das informações, recusando ajuda e concedendo à OMS acesso limitado a Wuhan.

Mas nada disso muda o fato de Trump ter sido informado a respeito do vírus no fim de janeiro, na pior das hipóteses. Ele argumentou que o vírus não representaria um problema para os EUA, que desapareceria em abril com a chegada do clima quente, e a adoção de medidas robustas assustaria o mercado de ações. Foram esses erros que agravaram a crise nos EUA.

Agora, para afastar a culpa, Trump ataca a China. Trata-se de um erro ainda maior. A maneira mais rápida de vencer a pandemia seria a construção de uma aliança internacional, compartilhando informações e coordenando medidas. Mas Washington está fazendo o oposto, roubando equipamento de outros países, restringindo o comércio de suprimentos essenciais e agindo sem consultar seus aliados. O único aspecto internacional da estratégia de Trump é seu esforço em culpar a China.

Enquanto isso, a China tenta limpar sua barra impulsionando uma teoria segundo a qual o surto seria obra do Exército americano. Pequim também tenta melhorar sua imagem dividindo sua experiência com outros países e enviando suprimentos. Durante a Guerra Fria, EUA e União Soviética co-operaram em uma campanha mundial contra a varíola. Agora, estamos no meio de uma pandemia global e as duas potências mundiais trocam insultos e culpam uma à outra feito crianças, em um jogo que não vai salvar nenhuma vida.”

Belo artigo esse da imprensa norte-americana, uma democracia jamais interrompida nem mesmo ou talvez pouco, durante a terrível guerra civil entre o Nordeste, em vias de industrialização, e o Sul, agrário, monocultor de algodão.

Ele desmente versões ideológicas da minúscula direita brasileira, porém barulhenta, que assentou praça na classe média inculta e também culta de nosso país, em menor escala.

Precisamos nos conscientizar do significado da democracia e do capitalismo cooperativo para nos safar da pobreza. Somente Juscelino soube ser prefeito, governador e presidente.

Chega de getulismos, janismos, lulismos e bolsonarismos. Vivemos um momento privilegiado para a reflexão política e sobre o papel dos eleitores e dos eleitos ou estaremos condenados para sempre ao subdesenvolvimento econômico e cultural.

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