O que se passa na China

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ.

O mais importante da economia chinesa é sua poupança extraordinária. Em 2010, a poupança nacional bruta alcançou 50% do Produto Interno Bruto (PIB). Desde então, caiu um pouco, correspondeu a 44% do PIB em 2019. Embora a poupança das famílias seja extremamente elevada, ao atingir 38% das rendas disponíveis entre 2010 e 2019, ela responde por pouco menos de metade. (O restante consiste, principalmente, de lucros corporativos retidos.)

(Foto: Paulo Miranda)

O investimento mais as exportações líquidas têm de corresponder à poupança quando a economia opera próxima da produção potencial, para que não sofra uma desaceleração severa. Então os chineses deram de construir prédios.

O investimento fixo total alcançou, em média, cerca de 43% do PIB de 2010 a 2019. Surpreendentemente, esse percentual foi cinco pontos percentuais superior ao registrado entre 2000 e 2010. Essa combinação de aumento do investimento e retração do crescimento indica uma grande queda dos retornos sobre o investimento.

O alto investimento está associado a enormes ampliações do endividamento, principalmente das famílias e do setor corporativo não financeiro: o primeiro saltou de 26% para 61% do PIB entre os primeiros trimestres de 2010 e de 2021, e o segundo, de 118% para 159% (uma parte significativa desse investimento foi desperdiçada). O próprio Xi Jinping falou da necessidade de mudar “para buscar um crescimento genuíno, e não um crescimento inflado, do PIB”. (Essa combinação de investimento elevado com a disparada do endividamento está relacionada à magnitude e à rapidez do crescimento do setor imobiliário.) Estudo de 2020 de Kenneth Rogoff e Yuanchen Yang argumenta que o setor imobiliário chinês contribuiu com 29% do PIB em 2016. Entre as economias de alta renda, apenas a Espanha pré-2009 se equiparou a esse nível (33% do investimento excepcionalmente elevado da China se concentrou em imóveis.)

Uma série de indicadores mostra que esse investimento é impulsionado por preços insustentáveis e por excesso de alavancagem que está criando capacidade excedente. Em Pequim, Xangai e Shenzhen, o patrimônio residencial respondeu por 78% do total dos ativos chineses em 2017, contra 35% nos EUA.

São comparáveis às observadas em países de alta renda; os indicadores de capacidade excedente são altos; e as taxas de propriedade de imóveis residenciais alcançaram 93% em 2017. Além disso, a formação de famílias está se desacelerando, a população da China está envelhecendo e 60% dela já está urbanizada. Todos esses fatores indicam que o surto de crescimento imobiliário tem de acabar. Existem prédios vazios e como o governo controla o sistema financeiro chinês, ele evitará uma crise financeira. Uma grande queda dos preços das residências e um grande impacto negativo sobre a riqueza e os gastos das famílias poderão ser evitados.

Rogoff e Yang argumentam que “uma queda de 20% na atividade imobiliária poderá levar a uma queda de 5% a 10% do PIB, mesmo sem a amplificação representada por uma possível crise bancária”.

Diz Martin Wolf, editor e principal analista econômico do Financial Times: entre 2012 e 2019, o investimento foi responsável por 40% do crescimento da demanda da China. Se o investimento em imóveis cair significativamente, deixará um déficit enorme, tolerar esse ajuste doloroso será, em última instância, uma providência desejável. Deverá melhorar o bem-estar da população: afinal, construir imóveis desnecessários é um desperdício de recursos. Desacelerar o ritmo recente dos investimentos em imóveis também será uma consequência natural das “três linhas vermelhas” impostas pelo governo às incorporadoras: limites rígidos à relação dívida sobre ativos da empresa, à sua relação dívida sobre capital e à sua relação caixa sobre dívida de curto prazo.

A principal política agora é deslocar os gastos para o consumo e afastá-los do investimento que causa desperdício. Isso exigirá redistribuição de renda para as famílias, principalmente para as famílias mais pobres, além de aumento no consumo público. Uma mudança desse gênero combinará com o recente ataque aos privilégios das grandes fortunas.

As crises representam oportunidades. O governo chinês sabe que o grande surto de crescimento dos investimentos em imóveis ultrapassou os limites do razoável. A economia precisa de outros impulsionadores de demanda. Uma desaceleração econômica prolongada, como a do Japão, é desnecessária, principalmente quando se considera o espaço existente para melhorar a qualidade de vida. O modelo fundamentado no desperdício de investimentos imobiliários chegou ao fim.

A China vai tornar-se uma economia de consumo, na certa! O PC tem visão!

De resto, mostra uma combinação sem par no mundo: uma economia de mercado sob um governo único. Na China deu certo. Aqui, um mandão desandou a economia. Só fala em moral. Qual moral? E o bem-estar do povo? Estamos indo para o ralo dos ratos bolsominions (tem muito queijo sendo comido por debaixo dos panos).

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