O presidente e a mentira

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ.

Nada de bom acontece. O PIB não deslancha como sempre se esperou. Isso o torna muito perigoso para a democracia.

Nixon, de fé protestante, como a maioria do povo americano, tem a mentira como a mãe de todas as faltas éticas ou, se quiserem, dos pecados. Nixon renunciou à Casa Branca porque a imprensa livre provou que ele mentira. O “case” ficou conhecido como o Escândalo de Watergate (uma mera espionagem na convenção do Partido Democrata).

Aqui, temos um governo que fala em Deus, pátria e honestidade, mas calunia terceiros, retorce os fatos e mente compulsivamente. Quando falo em governo, me refiro ao núcleo fascista à volta do presidente. A ministra Tereza e o ministro Tarcísio não costumam mentir, e, por isso, são os melhores!

Mas, quem mente mesmo – até porque tem um golpe de Estado na cabeça – é o presidente da República. Ele passa o tempo inteiro brigando com todo mundo. Até o vice-presidente é enxovalhado pelo dito-cujo. Seus seguidores, se vivessem com ele, sem babar ovos ou rasgar elogios – que ele se derrete em ouvi-los – um por um seriam pisados, brutalizados e humilhados.

Na qualidade psicológica de mitômano inconsciente, às vezes, mas quase sempre com malévola perversidade, pratica sistematicamente a mentira, o que faz dele, é claro, um mentiroso. Mente no atacado e no varejo. No atacadão, temos quatro macromentiras que escondem falhas e inépcias de sua péssima atuação presidencial na política interna (a externa não existe nem ele a exercita. Ninguém quer estar ao seu lado, nem sequer vai a fóruns e reuniões internacionais, a menos que sejam estritamente formais), o seu estilo não o favorece.

A primeira mentira ficou evidente quando não conseguiu provar a manipulação de milhares de urnas eletrônicas, alvo de acusações de S. Exa.

Xodó da classe média, normalmente idiotizada, em sua maior parte, uns três quartos dela nem se importaram… É seu suporte político, mas nas esferas mais altas da sociedade e no povo que sofre com a fome e o desemprego, seu prestígio é baixo. E ele sabe disso. Sabe e sente e amarga a certeza de que boa parte dela dá risadas e faz ouvido mouco às suas falas (vai perder as eleições). Outra não é razão para lutar pelo voto impresso. Acostumou-se na Baixada Fluminense a fraudar eleições. No mais, sua vida política (31 anos) ele se fez eleito – mesmo sendo do baixo clero – pelas urnas eletrônicas e nunca reclamou! Como sabe que vai perder o pleito, centra fogo nas urnas eletrônicas e calunia desde o Supremo até os juízes eleitorais e mesários, antes de atacar o TSE e os tribunais regionais eleitorais, cuja atuação tem sido honesta e republicana.

A segunda mentira, desde “a gripezinha”, é alardear que o STF não o deixou atuar. Os 560 mil mortos até agora não lhe dizem respeito. Vale dizer, ele se arroga de que comprou vacinas há tempo, distribuiu e levou a sério a pandemia, nunca nos chamou de “maricas”, nem se vacinou escondido, nem demorou uma eternidade para admitir a eficácia das vacinas. Toda a vida defendeu, em verdade, a cloroquina e a ivermectina. O STF deixou claro que as três esferas de poder deviam agir: União, estados e municípios…

A terceira mentira é a de que iria reformar a administração e a política do país. Aqui são duas mentiras abraçadas. Aumentou o número de funcionários, não reduziu a máquina pública a 15 ministérios e engrenou “um toma lá dá cá” com o Centrão, diário e feroz. Aqui particularmente a mentira e a enganação são evidentíssimas.

A quarta mentira é dizer-se democrata. Quem é democrata não se regala de ameaçar todo dia o Poder Judiciário e menosprezar, agora menos, o Legislativo, ou seja, a tripartição dos poderes, cerne da democracia. Bolsonaro é um feroz caudilho e só não avançou como liberticida por não ter o aval das Forças Armadas; caso contrário, já estaríamos na ditadura. O mercado financeiro e a oligarquia paulista não escondem a decepção. Nada de bom acontece. O PIB não deslancha como sempre se esperou. Isso o torna muito perigoso para a democracia. Teme-se que o Brasil se torne uma Venezuela de direita nos meios diplomáticos nos EUA e Europa.

Fico a me perguntar: qual a razão da sina do Brasil?. O nosso povo é inerte porque, diferentemente dos colonizados pelos ingleses, que foram alfabetizados para ler a “Bíblia Sagrada”, os colonizados pela Ibéria católica, Espanha e Portugal, foram mantidos no analfabetismo justamente para ouvir dos padres a interpretação ortodoxa do catolicismo apostólico romano. Esse mundo católico herdou a tradição autocrática dos Césares e o domínio da Igreja (é ver a inquisição no campo das ideias), o celibato (horror aos sentidos sensuais humanos) e a permissão apenas do casamento monogâmico casto (sexo somente para ter filhos). Evidentemente, dessa cultura nos sobraram o atraso cultural, o machismo, a submissão da mulher, a incultura popular, a crença cega nos “líderes”, “chefes” e “presidentes”, como o atual. E, o que é pior, o domínio das fazendas e fábricas por uma minoria. O povo sempre foi pobre e ignorante.

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