O presidente Bolsonaro e a saída de Moro

Das duas uma: ou o presidente escolhe mal ou não há ninguém capaz de conviver com as suas cóleras infantis e desígnios totalitários

(Arte/Paulinho Miranda)

FHC, um homem moderado, há uma semana recomendava calma àqueles que queriam ações enérgicas contra o presidente da República, a propósito da demissão do ministro Mandetta, que se saía muito bem no combate à pandemia do novo coronavírus. Simpático, com grande capacidade de comunicação (o que Bolsonaro não tem, pois fala como quem está dando ordem unida a recrutas), conquistou o Brasil fazendo sombra na imagem do César do Vale da Ribeira, em São Paulo, o que lhe acarretou, por inveja, a sua saída do ministério, por um ato truculento, recebido com elegância e naturalidade pelo então titular da pasta da Saúde.

Agora, dia 24 de abril, em meio à pandemia, o ministro Moro decidiu sair do governo por não concordar com outro ato ditatorial imotivado de Bolsonaro, em dissonância com as práticas republicanas de um país democrático, um enorme retrocesso. O ato de Bolsonaro é, no mínimo, desmotivado e desrespeitoso ao ministro mais admirado de seu governo destrambelhado. Assinale-se que é o oitavo ministro a sair do governo no curso de um ano e quatro meses. Das duas uma: ou o presidente escolhe mal ou não há ninguém capaz de conviver com as suas cóleras infantis e desígnios totalitários.

O pivô da crise entre o ministro da Justiça e o presidente foi a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal (PF), contra a vontade do ministro, a quem estava subordinado.

Valeixo havia sido escolhido por Moro para o posto e era considerado o braço direito do ministro. Mas quem é Maurício Valeixo? Formado em direito e delegado de carreira da Polícia Federal, Maurício Valeixo, paranaense de Mandaguaçu, foi anunciado por Sergio Moro como chefe da corporação ainda em novembro de 2018, antes mesmo da posse de Jair Bolsonaro como presidente da República. Até então, Valeixo era o superintendente da corporação no Paraná – que também é o estado de origem de Sergio Moro, que considera o chefe da PF como o seu braço direito no Ministério da Justiça e Segurança Pública. Ele já havia ocupado o cargo entre 2009 e 2011. O retorno ao comando da Superintendência da PF no Paraná ocorreu em dezembro de 2017, depois de um período em Brasília.

Em Curitiba, atuou em várias fases da Lava-Jato, operação pela qual Sergio Moro era responsável quando juiz federal. Uma das tarefas de Valeixo à frente da Superintendência da PF no Paraná foi coordenar os trâmites para a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em abril de 2018.

Foi também em sua gestão que foi fechada a delação de Antonio Palocci com a PF em Curitiba. Também foi responsável pela Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Dicor) entre 2015 e 2017, em Brasília, durante a gestão do ex-diretor da PF Leandro Daiello. O posto é considerado o de “número 3” na hierarquia da corporação e, naquela ocasião, era o setor mais ativo em tempos de Lava-Jato.

Moro e Valeixo ficaram bastante próximos durante a investigação do caso Banestado, que descobriu um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o banco estadual do Paraná em 2003. O caso não prosperou, mas serviu de embrião da Operação Lava-Jato.

Quando Moro o escolheu para comandar a PF, também trouxe duas pessoas ligadas ao seu braço direito para Brasília: o antecessor de Valeixo no comando da PF no Paraná, Rosalvo Ferreira Franco, e o diretor de combate ao crime organizado naquele estado, Igor Romário de Paula.

Valeixo tem 53 anos e integra os quadros da Polícia Federal desde 1996. Foi delegado da Polícia Civil por dois anos e adido policial em Washington (Estados Unidos).

O motivo da demissão de Valeixo, e a consequente saída de Moro, um homem honesto num ministério duvidoso como é o de Bolsonaro, foi a consequência imediata da saída de Valeixo, um homem honesto. Está em causa o acesso direto que o presidente queria aos inquéritos sobre a morte de Marielle Franco, que envolviam os filhos de Bolsonaro e o próprio presidente, as ligações com as milícias da Zona Oeste do Rio de Janeiro, das propinas na Assembleia Legislativa do Rio e das investigações decretadas pelo STF para apurar a central de fake news e passeatas dirigidas pelo bolsonarismo profissionalizado sob o comando direto dos filhos do presidente. Este parece, à vista de todos, como um despreparado para as altas funções que exerce. Tenho a impressão de que não cumprirá o seu mandato.

A saída de Moro está sendo largamente lamentada pelos próceres da República, nos três poderes da União e pelos governadores e secretários de Justiça dos estados. Uma coisa é demitir Bebianno, outra é demitir o jurista Sérgio Moro, símbolo de honradez e um herói nacional. O presidente vai aprender agora as justas críticas de todos os setores da vida nacional. Um pouco de humildade, senso de justiça e juízo na cabeça lhe fariam muito bem.

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