O Deus histórico de Judá

O que seria do cristianismo sem Paulo de Tarso? Ele é que tornou universal uma seita judaica amarrada no “Pai Javé”.

Deus, para ser Deus, tem que ser o suprassumo da bondade, do poder e da onisciência. Mas o mal existe na alma e na mente dos seres humanos. Se Deus não acaba o mal por não querer, não é o supremo bem; se não o faz por não poder, não é a suprema potência. E, se não o extingue por não saber ou não querer, não é onisciente. Pior ainda, se declara Deus de um só povo é parcial, no caso Israel. Se opera em troca de adoração e obediência, não passa de um vaidoso, à imagem das criaturas desse mundo.

O Deus histórico de Judá

Vejamos o Deus do velho testamento, a Torah dos judeus, que possui mil explicações para os atos do Senhor. Miles, que foi diretor dos críticos literários de NY, ensina que no confronto do conselho presidido por El, desde tempos imemoriais, Javé acusa os outros deuses de não corresponderem ao desafio social da época, em Canaã.

O salmista descreve Javé não só condenando à morte seus semelhantes divinos como usurpando a prerrogativa tradicional de El, que, aparentemente, ainda tinha defensores em Israel. Os perigos de uma religiosidade ‘idólatra’ se evidenciaram por volta de 622 a.C. Josias, rei de Judá, queria muito revogar as políticas sincretistas de seus antecessores Manassés (687-42) e Amon (642-40), que haviam estimulado o povo a adorar os deuses de Canaã juntamente com Javé. Manassés chegou a colocar uma estátua de Aserá no templo, onde florescia um culto da fertilidade.

Como muitos israelitas eram devotos de Aserá e alguns achavam que ela era esposa de Javé, só os javistas mais severos consideravam isso uma blasfêmia. Todavia, decidido a promover o culto de Javé, Josias tratou de restaurar o Templo de Salomão. Durante as obras, o sumo sacerdote Helcias encontrou um antigo manuscrito que supostamente continha o último sermão de Moisés aos filhos de Israel. Helcias o entregou ao secretário de Josias, Safan, que o leu em voz alta na presença do rei. O jovem monarca rasgou as vestes, horrorizado: compreendeu por que Javé se enfurecera tanto com seus ancestrais! Eles não seguiram suas instruções, confiadas a Moisés (II Reis 22, 3-10; II Crônicas 34, 14.).

“É certo que o ‘Livro da Lei’ encontrado por Helcias seja o núcleo do texto que hoje conhecemos como Deuteronômio. Existem várias teorias sobre essa oportuna ‘descoberta’ realizada pelo partido reformista. Alguns chegaram a sugerir que o sermão fora secretamente escrito por Helcias e Safan, com a ajuda da profetisa Hilda, a quem Josias consultou logo em seguida (para aprofundar, ver Jack Miles: Deus, uma biografia, NY).”

O livro denota uma intransigência inteiramente nova em Israel, reflete uma perspectiva do século 7 a.C. Em seu último sermão, Moisés dá uma nova centralidade à aliança e à ideia da eleição especial de Israel. Javé distinguirá seu povo de todas as outras nações não por mérito próprio, mas por seu grande amor. Em troca, exigia lealdade absoluta e uma ferrenha rejeição a outros deuses. O núcleo do Deuteronômio inclui a declaração que mais tarde se tornaria a profissão de fé judaica.

De resto, os judeus nunca foram escravos no Egito. Nas épocas de fome, iam trabalhar em obras civis ou pastorear no Leste do Nilo, e numa dessas voltas, Osarip ou Moisés (egípcio exilado) deitou falação nos Sina.

“Ouve Israel! Javé é nosso Elohim, Javé somente [ehad]! Amarás, pois, Javé com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua força. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão escritas em teu coração (Deuteronômio 6, 4-6.).”

Ao ser eleito por Deus, Israel se diferenciou dos “goyim”, os não filhos de Jacó e, portanto, quando chegasse à Terra Prometida, não teria nenhum relacionamento com as populações nativas: ‘Não farás aliança com elas nem lhes demonstrarás piedade’ (Deuteronômio 7, 3.). Não deveria haver casamentos mistos nem intercâmbio social.

E, principalmente, a religião cananeia deveria ser banida: “Derrubai seus altares, despedaçai suas pedras eretas, cortai suas estacas sagradas e queimai seus ídolos’, Moisés ordena aos israelitas. ‘Porque és um povo consagrado a Javé, teu Elohim; foi a ti que Javé, nosso Elohim, escolheu para que fosses seu povo, dentre todos os povos da terra.” (Deuteronômio 7, 5-6.)

Os cananeus eram caldeus e tinham uma origem comum, a mesma etnia. A diferença, necessariamente, seria no plano divino, na religiosidade. (Ob. cit. págs. 70/73 Miles)

No meu pensar, o Velho Testamento é a história do judaísmo. Os evangelhos, os escritos de Paulo, os textos do cristianismo. Crenças diversas, em essência, pretensões e organização. Não é de causar espanto os judeus, inclusive o irmão de Jesus, desejarem matar São Paulo três vezes (e quase conseguiram). O que seria do cristianismo sem Paulo de Tarso? Ele é que tornou universal uma seita judaica amarrada no “Pai Javé”.

E quem difundiu a seita? O Romano Constantino. Roma é a sede-mor do cristianismo e não Israel, graças ao Espírito Santo. O pai? Javé. O filho? Jesus. Eis a Trindade. É dogma. É proibido discutir…

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