O desprestígio do Brasil

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ.

O presidente Jair Bolsonaro abriu a 76ª Sessão da Assembleia-Geral da ONU com um discurso caro aos seus apoiadores.

A diplomacia brasileira, até o término do governo Temer, era considerada a melhor das Américas, tradição a remontar os últimos anos do reinado de Pedro II.

Lula se houve bem na política externa, em que pese a crítica de sua postura em face do regime totalitário de Cuba, mas fossem as contrapartes países capitalistas ou socialistas, os aspectos comerciais e estratégicos nortearam nossos diplomatas seguidamente. Ficou famoso o dito de Obama: “Esse é o cara”.

Com o início do governo de extrema-direita do Sr. Bolsonaro, o Brasil perdeu influência. Desde o início, Noruega e Alemanha cortaram as doações em euros para o Fundo da Amazônia, ante o descaso do Brasil relativamente ao bioma amazônico.

A América Latina já não vê nosso país com a intimidade de antanho. Nos países socialistas, a postura – é óbvio – ressoa hostilidade, casos de Cuba e Venezuela. Graves, entretanto, são os laços com os EUA e a Europa Ocidental. Bolsonaro teve a indevida postura de apoiar Trump. Mas quem venceu foi Biden, que o olha com desdém. Deu-se ainda à imaturidade de falar da idade da esposa do presidente Macron, da França, uma verdadeira “molecagem” descabida num chefe de Estado.

Além dessas impropriedades, a todo momento procurava imitar um dos presidentes mais desprestigiados dos EUA, o Sr. Trump, tido por “Sr. Grosseria”. Dele imita falar mal da imprensa e falar no “cercadinho” com seus operadores fanatizados, tal e qual.

Outro dia, encontrou-se com o ultradireitista e isolado presidente da Polônia, o Sr. Duda. Logo o veremos de braço dado com Obram, da Hungria, tido como neofacista. Estará formando o trio de extrema-direita hoje existente, contudo irrelevante e sem nenhuma serventia para a nossa diplomacia política e comercial, muito pelo contrário.

Seus seguidores, sem saber, acertam quando o chamam de mito. Quem já ouviu falar em mitologia grega, tão rica e variada, bem sabe que o mito é o inventado, um não-ser, o inexistente, a não ser como narrativa, sendo certo que a expressão está bem plantada no mundo da fantasia.

Os idiotizados que chamam o Bozzo de mito não sabem que mito é uma expressão derivada da mentira. Por isso os chamarei doravante de mitômanos, uma palavra que designa de modo elegante as pessoas que acreditam em mitos ou os criam nos seus pensares e dizeres.

Os seguidores de Bolsonaro estão hoje reduzidos a 20%, todos ou quase todos da classe média brasileira (está a merecer estudos sobre o seu modo de ver o mundo). Essa gente viu na Assembleia- Geral da ONU um mitômano de marca maior. Disse tudo que ele não é, embora a certa altura tenha recitado o “slogan” do bispo dom Sigaud: “Deus, pátria e família”. Na assembleia da ONU, causou um certo espanto essa cafonice. Não era ali o lugar apropriado para declarações desse jaez.

No mais, o presidente Jair Bolsonaro abriu a 76ª Sessão da Assembleia-Geral da ONU com um discurso caro aos seus apoiadores. Durante 12 minutos, a representantes de 193 países defendeu tratamento ineficaz contra a COVID-19, apresentou dados distorcidos sobre o desmatamento na Amazônia, falou sobre um suposto fim da corrupção como um avanço de seu governo.

Bolsonaro apresentou o país como um destino seguro para investimentos. “Temos o que o investidor procura: mercado consumidor, respeito a contratos e confiança no governo.” Disse que a estimativa de crescimento do país neste ano é de 5%, mas não citou que as previsões para 2022 estão abaixo de 2%.

Como sempre, conversa fiada e ocultamento de dados. Os principais jornais do mundo com correspondentes aqui o contestaram: El Pais, Le Monde, NY Times, The Guardian, Washington Post e outros.

O que se dá é termos um país seriamente dividido. E, pela primeira vez, o ódio embala o nosso conviver político.

Mas temos que aguentar e esperar um governo que se volte para obras e investimentos públicos, além de estimular e atrair investidores daqui e de fora. Esse governo não fez nada na infraestrutura do país. E ainda ameaça a democracia.

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