O apagão do emprego nos EUA

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ

Não se compreende a resistência americana à entrada dos sul e centro-americanos em seu território, ante a falta de mão de obra e seu alto valor em dólares.

Após mais de um ano e meio de pandemia, os EUA ainda estão com 4,3 milhões de trabalhadores a menos.

A falta de trabalhadores ocorre num momento em que os empregadores americanos enfrentam dificuldades para preencher mais de 10 milhões de novas vagas e para atender à disparada da demanda do consumo. Em outro sinal do grau de aperto por que passa o mercado de trabalho, os pedidos de seguro-desemprego — um indicador das demissões em todo o território americano — caíram para 293 mil no começo do mês.

Alguns economistas estão preocupados com a possibilidade de a piora na falta de trabalhadores refletir mudanças de longo prazo, como a aceleração das aposentadorias motivada pela pandemia, que não serão revertidas.

Muitos preveem que a falta de mão de obra durará vários anos e alguns dizem que é permanente. Dos 52 economistas consultados pelo Wall Street Journal, 22 preveem que nunca voltará ao nível pré-pandemia.

“Nosso problema não é uma economia que não quer ser retomada – ela já foi retomada”, disse Ron Hetrick, economista da empresa de análise da PEA Emsi Burning Glass. “Simplesmente, não há pessoas para fazer o motor funcionar. Não sabemos como fazê-lo pegar de novo neste momento.”

Os empregadores têm reformulado seus modelos de negócios para se ajustar à falta de trabalhadores. Alguns, como donos de restaurantes, reduziram o horário ou os dias de funcionamento. Outros simplesmente cortaram serviços.

Muitos nova-iorquinos mudaram-se para a pequena cidade de Washington, em Connecticut, durante a pandemia, o que ajudou a impulsionar os negócios no Po Café, segundo sua proprietária, Maggie Colangelo. Seus 10 funcionários têm trabalhado longas horas e fazem malabarismos para dar conta de várias funções.

Em Reno (Nevada), onde há forte escassez de enfermeiras, a Renown Health, uma grande rede de assistência médica e hospitalar sem fins lucrativos, investe em uma tecnologia que permitirá que cada enfermeira de seus hospitais atenda mais pacientes. Em um programa-piloto, um dispositivo eletrônico com o tamanho de uma moeda fixado ao peito do paciente permite que as enfermeiras verifiquem seus sinais vitais remotamente. Elas trabalham em uma sala que lembra o centro de controle de tráfego de um aeroporto, mas, em vez de aviões, monitoram batimentos cardíacos, pressão arterial e outros sinais vitais.

Outra resposta à falta de mão de obra é pedir – e às vezes exigir – que os funcionários façam horas extras. No mês passado, os funcionários do setor de manufatura trabalharam em média 4,2 horas extras por semana, em comparação com 2,8 horas em abril de 2020, de acordo com dados do Departamento do Trabalho. Muitos trabalhadores gostam do dinheiro extra, mas outros se sentem frustrados, sobrecarregados, insatisfeitos e irritados.

Parte desse declínio na participação é um reflexo de tendências e envelhecimento anteriores à pandemia. A população de aposentados cresceu 3,6 milhões nos EUA entre fevereiro de 2020 e junho de 2021, mais do que o dobro do aumento de 1,5 milhão que teria ocorrido se fosse mantido o ritmo de aposentadorias pré-COVID, segundo o Federal Reserve Bank de Kansas City (unidade regional do Fed, o banco central americano).

Uma revolução silenciosa perpassa os Estados Unidos. Por vários motivos, o endeusamento do “self made man” e o culto da livre iniciativa têm decaído. O americano passou a buscar mais descanso, menor agitação e a louvar a “civilização do lazer”, o que era previsível e, cá pra nós, merecidamente.

Uma vida simples é preferível à de um milionário sem tempo para nada. Essa é uma tendência que chegou para ficar. E tende a crescer.

Agora só falta abrir as portas para aqueles centro-americanos que desejam trabalhar nos EEUU. Chega de muros e cães na fronteira.

Tanto os EUA como a China estão sob o impacto de novos tempos.

No que tange à China, há que dizer sobre os vários arrazoados sobre a sua condição de segunda economia mundial em crescimento acelerado, a gerar uma brutal demanda por energia (carvão, gás, diesel, solar, eólica, hidrelétrica) difíceis a curto prazo.

Entre as razões mencionadas estão a recuperação econômica global que multiplica a atividade manufatureira, os limites de produção de carvão impostos em nome das metas climáticas, e a existência de um preço regulado da eletricidade.

Em antecipação à conferência climática da ONU (COP-26), que acontece em Glasglow, Escócia, o presidente Xi prometeu que o país vai parar de construir novas centrais elétricas de carvão no exterior. A promessa no exterior é possível, na China é duvidosa. Oleodutos da Sibéria russa asiática poderão suprir as províncias ao Norte da China. Leva tempo. E ainda é preciso combinar, sempre, com os russos!

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