Nosso Deus semita

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ

São absurdas e numerosas contradições do Velho Testamento e a gritante incompatibilidade entre o Javé da Torá e o Jesus de Nazaré do Sermão da Montanha

É realmente espantosa a expansão do cristianismo no mundo ocidental 100 anos depois da morte de Galileu, primeiro no Oriente próximo e na Grécia, obra de Paulo, que não conheceu Jesus, o carinhoso rabi da Galileia, que falava como língua de nascimento o aramaico. Tiago, irmão de Jesus, o queria dentro do judaísmo e tentou matar Paulo por seu “universalismo”. É que o judaísmo é excludente. Vale para judeus tão somente e convertidos. O monoteísmo judaico é um processo de emancipação de um deus tribal. Javé era um Deus menor do panteão de El, o Deus de todos os Elohins (deuses menores da Cananeia), alçado à condição de único Deus verdadeiro, inteiramente devotado ao povo judeu, por força de um impressionante movimento político-religioso, por alguns denominado “Javé sozinho”, por volta de 750 a 650 a.C., ao tempo dos reis Ezequias e, principalmente, Josias.

Durante sua infância, Javé era um Deus familial e atencioso, mas ainda não tinha nome próprio. Era o Deus de Abraão, de Isac e de Jacó. Depois desaparece na suposta fase egípcia de “seu povo”, reaparecendo em sua juventude como o Senhor dos Exércitos, general na guerra e legislador na paz, a prometer mundos e fundos a “seu povo”, escolhido por ele entre todos os existentes no mundo, num gesto tendencioso para um Deus. É clara a discriminação contra o resto da humanidade.

Na maturidade, após a queda dos reinos de Israel (ao norte) e Judá (ao sul), transforma-se em um Deus oculto e misterioso, dividindo-se em três na velhice, segundo o cristianismo, num incrível desdobramento de sua tumultuada personalidade. Os judeus, após a diáspora decretada por Roma, se espalharam, chegando à Pérsia e à Europa.

São absurdas e numerosas contradições do Velho Testamento e a gritante incompatibilidade entre o Javé da Torá e o Jesus de Nazaré do Sermão da Montanha. Tudo começou há 27 séculos com um projeto de poder. E para compreender a total diferenciação entre o judaísmo e o cristianismo, vamos avançar até o momento em que Javé torna-se “o pai” de Jesus, segundo a tradição cristã (Trindade).

O Deuteronômio (que absolutamente não é um dos livros do Velho Testamento) senão a reinvenção dele, até então uma tradição oral e não escrita.

Jesus nasceu judeu – em região periférica da Judeia (a Galileia ficava para lá da terra dos samaritanos) – e falou aos judeus, inserido no caldo de cultura desse povo. De repente, para espanto de sua gente de Nazaré, onde era conhecido como o filho do carpinteiro José e irmão de Tiago e outros tantos, torna-se um pregador visionário e apocalíptico, que se lança contra o judaísmo estabelecido, conformista e legalista. Certamente conhecia as escrituras em hebraico, traduzidas por ocasião dos ofícios religiosos nas sinagogas da Galileia, e nada de grego ou latim.

Sobre a sua vida até os dias de pregador pouco se sabe, ou o que se soube foi suprimido, por não convir ser conhecido. Há uma curiosidade sobre a sua vida conjugal, numa época em que os judeus casavam-se muito cedo, por várias razões, incluindo as recomendações da lei (a Torá). Falava a língua da região de Aram-Damasco ou siríaco antigo, disseminado na Palestina de então. Anunciava a chegada iminente do Pai, jamais pronunciou o nome “Javé” e conclamava os “grandes” e “poderosos” a se endireitarem, pois se não o fizessem não entrariam no reino dos céus. Era mais fácil uma corda passar pelo buraco de uma agulha do que um rico de bens materiais entrar no paraíso (as péssimas e frequentes traduções dos textos bíblicos confundiam “corda” com “camelo”).

Detestava as diferenças de classe social e a empáfia dos fariseus e saduceus do seu tempo. Por isso era ebionista, ou seja, era a favor dos pobres e desprotegidos, além de propugnar o abandono da riqueza, que devia ser partilhada entre todos (comunismo primitivo). A parábola do jovem rico deixa isso bem claro, assim como o Sermão da Montanha. Pedia a todos que abandonassem pai e mãe, a família, os afazeres cotidianos e o seguissem, pois, esse mundo estava prestes a acabar e logo viria o Pai e o reino dos céus com suas bem-aventuranças. A parusia!

Foi contra a lapidação das pecadoras, rebelou-se contra o shabat (o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado), declarou-se contra o hábito mosaico que dava ao marido desgostoso o direito de repudiar a mulher (comumente virava pedinte ou prostituta). Foi acusado de perturbar a pax romana e os preceitos vetustos da Torá. Mas o mundo teima em existir, sem o apocalipse!

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