No final, mais inflação

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ.

O presidente Bolsonaro – nele votamos – decepcionou todos. Não pela sua costumeira empáfia e constante falta de educação, indevida num chefe de Estado. Descendente de imigrantes italianos, é nascido no atrasado Vale da Ribeira, a única região subdesenvolvida de S. Paulo, ou como se diz lá, o vale das bananas, entre Santos e Paranaguá (Paraná). Não deve ter sido educado com esmero bem-estruturado. Afora isso, foi aluno de escolas públicas de eficiência média. Não conhecemos seus antecedentes, salvo alguns eventos desabonadores. Não incluo vários casamentos e temperamento rebelde. Essas coisas acontecem por causa da sociabilidade e do material genético dos indivíduos. Certamente, sabe-se que foi “convidado” a sair do Exército nacional, no início da carreira, por liderar “greve” ou o que a isso equivalha, com o fito de aumentar os soldos dos tenentes. No Exército, ao sair dele, ganha-se uma patente. Só por isso – já faz muito tempo – deu baixa como “capitão”… (Não foi nem por mérito nem por tempo de serviço duro, na selva, vg.)

Isso posto, o nosso presidente não é militar e desde um passado bem remoto. Eu também sou tenente (se for chamado). Fiz, quando estudante, o CPOR (Centro de Formação de Oficiais da Reserva). O coronel da época de minha formação militar no forte de São Joaquim (forte e quartel) foi o coronel Frota, aquele que quis peitar, já general, o presidente Geisel e terminou preso, indo para a reserva em seguida.

Mas deixemos de biografia, que no caso nem vale a pena. A questão que preocupa todos nós é o aumento da inflação devido aos gastos excessivos do governo, a falta de privatizações e a demagogia de substituir o “velho” Bolsa-Família por um programa que tenha as digitais do atual presidente do país (vanitas, vanitatis).

O Plano Real, para quem não viveu no Brasil do presidente Itamar Franco, acabou com a inflação galopante e frenética que assolava o Brasil (120% a 350% ao ano), impossibilitando o planejamento das atividades econômicas, a vida das famílias e a ciranda dos aumentos salariais o tempo todo. Quem aplicou o Plano Real e organizou a economia foi Fernando Henrique Cardoso (FHC), na época ministro da Fazenda de Itamar Franco, político de Juiz de Fora e vice de Fernando Collor de Melo, que sofrera a ameaça de impedimento em vias de ser instalado, e preferiu renunciar preventivamente (mesmo assim, houve, ao meu sentir indevidamente, o impeachment de um presidente, cuja cadeira já estava vaga…)

Nada ou quase nada foi privatizado, o Brasil se distanciou dos centros econômicos e políticos de poder (EUA, UEE e China) e não dialoga com as contrapartes do Mercosul

Mas o que importa dizer nesta feita é que, após o Plano Real, a economia do Brasil jamais voltou a ser hiperinflacionária. Houve até deflação (queda dos preços dos bens) em razão da instauração de um complexo conjunto de expectativas.

O plano teve esse nome porquanto se criou uma moeda com o mesmo nome, além de inúmeras outras providências no plano econômico e na gestão da coisa pública ou, para abusar do latim, da res publica…

Dito isso, é preciso gizar que em economia duas coisas são muito importantes: (a) as promessas, que uma vez não cumpridas desorganizam as expectativas dos agentes econômicos; e (b) os gastos, que quando se tornam excessivos (e não reprodutivos) provocam aumentos preventivos dos preços relativos, impactando negativamente a política dos preços públicos e privados.

Pois bem, é justamente isso que estamos a assistir. Bolsonaro se apresentou como um liberal-democrata no plano político e um privatista, adepto da livre iniciativa no plano econômico. Ademais, acenou a sua integração no mundo liberal e democrático ocidental, propondo-se a privatizar largos setores da economia nas mãos do Estado, além, é claro, da bandeira de todos os déspotas, um feroz “moralismo”.

Estamos a 15 meses do fim desse governo. Nada ou quase nada foi privatizado, o Brasil se distanciou dos centros econômicos e políticos de poder (EUA, UEE e China) e não dialoga com as contrapartes do Mercosul. O presidente é um autoritário e nem partido tem (autocrata). O Brasil, se cresceu, deve-se à iniciativa privada, o tamanho do Estado é o mesmo, se não for maior!

O que temos? O Centrão na Presidência (que ética, meu Deus). Sabe-se que seus políticos gostam do toma lá dá cá como modus operandi.

Mas não ficamos nisso. Ele nos deixará como herança, era só o que faltava, uma inflação que ameaça – com ou sem “planos emergenciais” – sair de controle (10% em 18 meses). É a mais alta desde o Plano Real. A fome e o desemprego crescem a olhos vistos. Em consequência, o BC aumenta os juros básicos da economia e os agentes econômicos começam a reajustar preventivamente os preços. E isso se chama inflação.

Quem o elegeu tem o dever de sofrer até o fim ou ser tão desqualificado como ele é, em qualquer plano em que for analisado, inclusive no atendimento às demandas do Centrão por dinheiro, cargos em comissão e obras pequenas (ou não), mas todas eleitoreiras.

Tudo com o dinheiro dos tributos que pagamos.

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