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Nelson Mandela

Se um homem negro foi capaz de unir o indomável espírito de luta à potência do perdão, a emoção do injustiçado à razão do estadista; sustar a vingança do recluso por 27 anos em favor da reconciliação, a ponto de dobrar tanto a ira dos negros espezinhados, como a resistência dos opressores brancos, ele representa o que já sabíamos, mas muitos ainda duvidam: a igualdade radical entre brancos, amarelos e negros para o bem e para o mal, e que os heróis surgem da espécie humana, indiferente à cor da pele.

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Mandela significa, ainda, que um agnóstico humanista pode ser mais digno e justo que os verdugos cristãos do apartheid. Ei-lo a agigantar-se como poucos líderes de nossa humanidade, igual ao indiano Gandhi, outro símbolo do quanto pode a determinação e a quem Churchill, adepto do colonialismo britânico, aludindo ao seu tipo disforme, chamava de “repugnante ave pernalta” (Gandhi libertou a Índia da Inglaterra, praticando boicotes, resistência passiva e não violência).

Sarney acertou ao dizer de Mandela: “Homem já não é, mas símbolo, e os símbolos são eternos”. Sim, jamais serão esquecidos pela humanidade. Mas símbolo de quê? Vitor Paolozzi fez dele a síntese: “Morreu Nelson Mandela, que comandou, inclusive por meio da luta armada, a campanha pelo fim do apartheid, o regime de segregação racial da África do Sul, e que foi o primeiro presidente do país após a sua democratização. Mandela ficou preso durante 27 anos e meio e, ao sair, mostrou carisma e liderança à altura da enorme expectativa depositada sobre ele, evitando a ameaça de uma guerra civil e conduzindo um processo de reconciliação entre negros e brancos que lhe valeu a admiração mundial, um Prêmio Nobel da Paz, o título de ‘herói dos heróis’, da revista The Economist”.

Quando nasceu em 1918, os negros não participavam de eleições nem podiam frequentar restaurantes, praias, escolas, hospitais e outros locais de uso exclusivo de brancos. Eram obrigados a ficar em áreas determinadas pelas autoridades e portar “passes” para entrar e sair (como na Palestina ocupada). Eram humilhados na terra de seus ancestrais, mão de obra barata nos trabalhos mais servis, pela suposta superioridade da raça branca (descendentes de holandeses e ingleses, que lutaram pela invasão e posse do país).

Seu pai era o chefe dos mvezo, pertencentes à tribo Thembu, da etnia xhosa. Para fugir de um casamento arranjado foi para Johanesburgo e cursou direito em escola para negros. Ingressou no Congresso Nacional Africano (CNA) em 1942 para representar a maioria negra. Estudou marxismo e defendeu a aliança do CNA com o partido comunista por lhe agradar uma sociedade sem classes.

Abriu a primeira banca de advocacia negra no país. Na campanha “contra as leis injustas” foi preso, mas obteve sursis. Continuou na luta pelos direitos civis, mas em 1960, após um massacre de negros pela polícia branca, abandonou a não-violência e entrou na luta armada contra o regime. Estudou os mestres da guerrilha: Mao Tse Tung, Che Guevara e Menachem Begin, que fazia atentados na Palestina contra os ingleses antes de a ONU criar Israel. Mas preferiu o caminho da “sabotagem constante”, em vez da guerra civil ou o terrorismo, “porque não envolvia a perda de vidas”. A ideia era destruir usinas, linhas telefônicas, quartéis, criar insegurança, assustar os investidores estrangeiros, o que lhe valeu em 1964 a prisão perpétua.

A luta crescia. Mandela tornou-se líder lendário. O CNA personalizou nele a luta pela libertação dos presos políticos. O governo branco, à sua vez, procurava um líder com apelo popular para evitar a guerra civil. Por três vezes o governo ofereceu-lhe a liberdade em troca de concessões. Mandela recusou-as. Em 1990 foi libertado incondicionalmente, como queria. Fora da prisão, liderou com o branco De Klerk as negociações que resultaram na Constituição sul-africana e nas eleições gerais de 1994.

Eleito presidente, convidou para a posse três guardas brancos do presídio. A maior intuição de Mandela foram as “comissões da verdade e da reconciliação”, base de uma futura sociedade multiétnica pacificada (brancos, negros e indianos). Não resolveu – nem poderia – todos os imensos problemas da África do Sul, mas lhe deu rumos para o futuro.

Casou-se três vezes, a última com Graça Machel, viúva do presidente Samora Machel de Moçambique, de fala portuguesa. Sobre ele testemunhou o nosso maior estadista vivo, Fernando Henrique Cardoso: “Sua figura humana me marcou profundamente. Mandela é um desses homens raríssimos que têm uma ‘aura’ própria, um magnetismo que não se sabe bem de onde vem, mas que contagia a todos. Quando entrava numa sala, era como se o ar se carregasse de eletricidade”.

Para encerrar, ubuntu significa que o homem só é homem quando reconhece no “outro” um ser igual a si próprio (a dignidade imanente dos negros bantos há milênios).

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