Macaco em loja de louças

Entre nós o morticínio não comove o presidente, que chama o choro dos parentes de “mimimi”

 

Não sou eu que estou a dizer, são empresários ao maior jornal de negócios do Brasil. É deles que o financiamento para as campanhas – deixemos de hipocrisia – dimana e decide. Sem o grande capital não há campanha eleitoral.

A crise gerada pela insatisfação do presidente Jair Bolsonaro com o reajuste dos combustíveis e por sua decisão de substituir o presidente da estatal, Roberto Castello Branco, pelo general Joaquim Silva e Luna extrapolou os limites da companhia, do razoável e do bom senso.

A intervenção na maior empresa brasileira, que tem 43,11% do seu capital total em mãos de investidores estrangeiros, e as ameaças do presidente de que vai agir também sobre outras empresas na área de energia, tiveram o efeito de ampliar a percepção do risco Brasil, ou melhor, do risco Bolsonaro. Armínio Fraga, sócio da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, diz que o episódio evidencia que o mesmo pode ocorrer em outras estatais e concessionárias de serviços públicos.

A consequência desse cenário de instabilidade e pressão no câmbio deve ser mais inflação e recuperação mais lenta da economia, afirma Sergio Goldenstein, consultor independente e estrategista na Omninvest Independent Insights. Caudilhos não rimam com investimentos.

Por outro lado, no Norte do país, outros atores políticos movimentam-se, a bem do desenvolvimento sustentável da Bacia Amazônica e do potencial do Brasil central. O Consórcio dos Governadores da Amazônia pretende criar um fundo com multidoadores para o desenvolvimento sustentável da região. A iniciativa será apresentada hoje a empresários e pesquisadores da Concertação pela Amazônia, em busca de meios para desenvolver a região sem derrubar floresta. O encontro tratará de novos caminhos para a cooperação Brasil-Estados Unidos. A ideia é ter uma alternativa ao congelamento do Fundo Amazônico, travado há dois anos com a retirada da Noruega e Alemanha, doadores líquidos, por divergências com Bolsonaro.

Comentarista em Brasília, com alto grau de precisão, discorre sobre o genocídio brasileiro, nos colocando em primeiro lugar à frente dos EUA, que soube lutar contra a pandemia. “Somos o país mais infectado do mundo, com um presidente, tal qual Trump, negacionista, narcisista e destituído de empatia.”

É obvio que um povo doente não produz. O que não se entende é a louca oposição entre COVID versus economia. A saída de Biden foi oposta à de Bolsonaro: vacinação em massa para recuperar a produção. Está já colhendo os resultados, enquanto entre nós o morticínio não comove o presidente, que chama o choro dos parentes de “mimimi”.

“Promover reformas é saudável, mas fazer só isso e esperar a pandemia passar para começar a pensar no planejamento econômico constituiu omissão. Mesmo antes do fim da pandemia e da conclusão das reformas, o país precisa se preparar para uma fase em que o investimento público vai puxar o crescimento da economia e do emprego.”

Cabe aqui uma reflexão: será que algum dia as reformas vão terminar? Desde 1964, quando João Goulart propagava suas reformas de base, nunca mais se parou de ouvir falar nelas. “Não se pode esperar, ingenuamente, que o desenvolvimento se dê num passe de mágica, por obra e graça do ‘mercado’. A recuperação pós-pandemia depende de ações obstinadas do setor público” e do governo.

Roosevelt nos EUA sabia, e fez toda uma programação econômica – chamaram-no até de socialista – para tirar os EUA da recessão. Governou os EUA de 32 a 45 do século passado e só não continuou porque morreu (quatro mandatos).

“Está na hora, então, de fazer algumas perguntas. Quem demonstra obstinação por ‘desenvolvimento’ no atual governo? Embora haja um ministério com esse nome, a palavra entre aspas nem é pronunciada na cúpula econômica, desperta nojo, tida como bibelô da esquerda desenvolvimentista.

Quem prepara programas de estímulos para incentivar investimentos em setores-chave nas próximas décadas? Com a honrosa exceção do ministro da Infraestrutura, Tarcisio Gomes de Freitas, aparentemente ninguém, porque a convicção liberal é de que a mão invisível do ‘mercado’ fará esse papel.”

A área da mobilidade passa por mudanças explosivas. Em menos de 10 anos, os carros de hoje serão “carroças” do século 20. Mas o nosso governo desgovernado, incapaz de administrar o presente, quando será que vai planejar o futuro? A resposta é nunca!

Estamos condenados ao atraso, se não mudarmos para mãos e mentes competentes em 2022.

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