Lula espancado carrega sua cruz

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ

Em S. Paulo, Haddad lidera a disputa, mas também enfrenta a rejeição mais alta, quesito em que ruma para ter concorrentes

Tenho lido a crônica política de São Paulo. Nada ficou provado, tipo preto-no-branco contra Lula. Mas as milícias digitais do senhor Bolsonaro estão ativas nos celulares. O bordão é Lula ladrão. Enquanto isso, o PT parece morto nas redes e não explora o dinheirão que saiu, via dois pastores, do Ministério da Educação para o caixa 2 da campanha da reeleição. O PT é de uma incompetência impressionante!

Ao contrário de Lula, que tem na defesa da democracia o foco de sua polarização com Bolsonaro, Haddad tem dois adversários fortes cujas máquinas federais (Freitas) e estadual (Garcia) tendem a pesar mais do que os valores, políticos e éticos.

Em S. Paulo, Haddad lidera a disputa, mas também enfrenta a rejeição mais alta, quesito em que ruma para ter concorrentes quando os eleitores se derem conta de quem são os candidatos e seus apoiadores. Bolsonaro e Doria lideram a disputa de padrinhos mais rejeitados…

A rejeição de Doria ruma para se tornar um clássico da história política. A CoronaVac faz dele um dos gestores públicos mais credores de reconhecimento nesta pandemia. Mas a incapacidade de esquentar a cadeira o sufoca na raiz. No seu lugar, brotou a aversão à política, a ele! É pintado como filho de burguesia paulista… (inveja nacional).

A obsessão pelo marketing, a traição a Alckmin e até a luta contra Bolsonaro na pandemia pesam contra si e contaminam tudo o que faz. O estado tem a menor taxa de homicídios da história (6/100 mil habitantes) e multiplicou por nove os alunos matriculados em tempo integral, mas metade da população o desaprova como governador.

“Entre 1995 e 2021, São Paulo cresceu 65,2% e o Brasil, 71,5%. De sua posse até o fim do ano passado, o estado cresceu 8% e o país, 1,8%, mas ele se mostra incapaz de convencer mais do que 3% da população de que governaria bem o país, como fez em SP.

Rodrigo Garcia terá apenas seis meses como governador para tirar o manto do antecessor sobre este legado. Não será fácil porque, como candidato a presidente, a gestão em São Paulo é o que Doria terá a mostrar.

Seus correligionários acham que os 20% de reconhecimento da gestão são suficientes para colocar Garcia no segundo turno, mas o apoio de Bolsonaro amealha isso para Tarcísio.

Será fácil convencer o eleitor de que é preferível prorrogar a ‘fadiga de material’ com o PSDB a entregar a polícia para Eduardo Bolsonaro acabar com as câmeras nos uniformes que derrubaram a letalidade policial… (no Brasil o povão é inimigo da polícia que de lá saiu, mas sofre de complexo de inferioridade e gosta de bater em pobre ao mesmo tempo que respeita os ricos).

O risco de o bolsonarismo, derrotado nacionalmente, sobreviver em São Paulo seria suficiente para Haddad e Garcia fazerem um acordo de apoio recíproco, em caso de um dos dois não ir para o segundo turno. Como disse Alckmin na filiação ao PSB, ao lembrar as disputas contra Lula, era um tempo em que não se colocava em questão a democracia. Agora é.”

Não há, porém, pontes capazes de costurar um compromisso antibolsonarista. E, assim, depois de danificar trilhos por onde escoam os destinos da nação, o bolsonarismo parte para tomar São Paulo, mas dificilmente conseguirá. Sua vida política foi feita nos quartéis com sargentos e cabos e nos grupos de extermínio das polícias e milícias, nunca nos estamentos sociais da classe média baixa e entre trabalhadores e desprotegidos históricos. Seu grande bastião é na classe média alta (70%), mas sem votos decisivos.

Ninguém está em condições de derrotar Luiz Inácio “Lula” da Silva no grande eleitorado do Nordeste e no Sudeste, principais colégios eleitorais. Apenas no Sul de italianos, polacos, ucranianos, alemães e japoneses, “o estrangeiro Bolsonaro” tem contraponto eleitoral ao lulismo.

As pesquisas apontam um lugar de resistência do lulismo à altura dos 42% do eleitorado, dificilmente removido em que pese a acusação de ladrão (baixaria) que o bolsonarismo quer lhe imputar.

Depois dos pastores que usavam o nosso dinheiro no Ministério da Educação para fazer caixa de reeleição do presidente, caiu sua última máscara de religioso. É ladrão disfarçado e falastrão. É como o batedor de carteiras que nos rouba e grita “pega ladrão”.

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