Hipocrisia, Grécia e Síria

A China, sábia, prepara-se para crescere a 8%, voltando-se ao seu descomunal mercado interno para substituir o externo.

A importância da Grécia na formação do pensamento ocidental é apenas comparável à de Roma, que juntou a Bacia do Mediterrâneo unificando o Oriente Próximo (o Médio é mais para lá) à Europa inteira, sob seu comando político, militar, jurídico e religioso. De Constantinopla e de Roma surgiram os ramos ortodoxos e católicos da cristandade. As palavras democracia e hipocrisia são totalmente gregas, como centenas de palavras ligadas às abstrações conceituais. A Grécia agora é vista como irresponsável. Fala-se em excluí-la da zona do euro. O Reino Unido e a Dinamarca sequer o adotaram, para não abdicar de ter políticas monetárias e cambiais próprias. Justo por isso, por não tê-las, a Grécia está encurralada. Não pode desvalorizar a moeda e exportar mais. É certo que a Grécia, como toda a Europa, esticou demais o welfare state (o estado do bem-estar), às expensas do tesouro. Na verdade, os europeus, exceto os alemães, adoram trabalhar pouco, ganhar muito e aposentar-se cedo. Deixaram que os mercados financeiros desregulados da city londrina e de Wall Street – cujo nome é significativo – derrubassem o muro ilusório dos derivativos, das hipotecas e do dinheiro sem lastro. O castigo veio a cavalo e pegou a todos sem exceção. A inadimplência do devedor real fez ruir a riqueza virtual dos sistemas financeiros dos Estados Unidos e da Europa.

De repente os bancos se viram em apuros. As garantias valiam quase nada. A crise de liquidez gangrenou o crédito e, logo, a produção, o emprego e a renda. O que fizeram os governos? Injetaram fabulosas quantias nos bancos para salvar os mercados. Qual o resultado? A batata quente a queimar as mãos dos banqueiros foi parar no balanço das nações. Os EUA devem praticamente o seu Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 15 trilhões. Não são apenas Grécia, Irlanda, Portugal, Bélgica, Espanha e Itália que apresentam dívidas monstruosas e alto desemprego. Endividados estão todos, inclusive Inglaterra, França, Holanda e Alemanha. As economias dessas três últimas representam 55% do PIB da União Europeia (UE). A minúscula Grécia representa 2,5% do mesmo.

Não adianta pôr à disposição dos bancos e de hedge funds o dinheiro da UE e do Fundo Monetário Internacional (FMI), jogando o país em recessão. Os ávidos credores sugam, com juros cada vez maiores, a oferta dos títulos gregos, olhos postos nos avalistas. A moratória é inevitável, melhor que seja organizada, sem traumas. Os bancos alemães e franceses (60%), suíços, ingleses, europeus em geral e alguns norte-americanos, são os credores da Grécia. Realisticamente, Grécia, Portugal e Irlanda precisam de um Plano Bradley (aquele que equacionou a dívida brasileira). A banca – que originou todo o problema a assolar o mundo inteiro – tem que assumir em seus balanços os prejuízos das pessoas e das nações. As consequências serão duras. Haverá uma década de baixo crescimento e o gosto amargo de quem perdeu no cassino boa parte de sua ilusória riqueza. Cabe ao Banco Central da Europa (BCE) e à banca particular organizarem o escalonamento da dívida soberana dos países europeus. O resto é pura ilusão.

Washington terá que largar os bancos e não pode mais gastar militarmente o dinheiro dos contribuintes. É preciso regular o mercado financeiro e parar de emitir moeda sem lastro. A sua posição econômica no mundo declinará. É o preço a pagar. A China terá crescido o quádruplo no período da reabilitação norte-americana. Mas sem ela os EUA não rolam os títulos da dívida. Em troca, não fecham os mercados. A China, sábia, prepara-se para crescer a 8%, voltando-se ao seu descomunal mercado interno para substituir o externo. Aumentará os salários e o iuan, como decidiu recentemente durante o Congresso do Povo (plano 2011 a 2014). Como se vê trienal. Os investimentos para continuar a crescer serão em tecnologias de ponta e energias renováveis, solar, eólica e filtros para carvão.

Não sei se a hipocrisia é maior na economia ou na política externa. Tenho pena dos sírios que se imolam contra grupos de civis e militares corruptos, em contínua espoliação dos recursos do país, como ocorria na Tunísia e no Egito e ocorre na Arábia Saudita, na Líbia, no Iemen e nos Emirados Árabes. O fundamentalismo religioso – em certos estados árabes – entorpece o povo. Nesses mesmos países e noutros, famílias, clãs, os financistas e o Exército exploram o povo com ditaduras políticas aceitas pela Europa e EUA, em troca de petróleo e estabilidade. Exortam os governos a fazer reformas democráticas, mas dificultam a revolta das populações jovens em busca de novos horizontes. Não há falar em bloqueio econômico às ditaduras árabes. A família Saud, por exemplo, impede as mulheres de dirigir, mas investe pesadamente nos EUA e na Europa. O Ocidente é democraticamente hipócrita. O castigo é merecido.

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