Guerra cambial

Precisamos de uma âncora fiscal séria e responsável.

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A China, que desde 2005 subiu em 5% o valor do yuan em relação ao dólar, continuará a fazê-lo lentamente ou estancará o processo – à medida que o dólar acelerar a desvalorização –, certamente aumentará aos poucos os salários e os juros para absorver sua produção e refrear o excesso de crédito que promoveu em 2008/09 para enfrentar a crise nos Estados Unidos e na Europa. Percebeu que seu mercado interno é fantástico e que o excesso de crédito gera inflação – o gigante asiático só não foi o primeiro país a sair da crise, como o Brasil reivindica para si, porque sequer nela entrou junto com a Índia.

A União Europeia (UE), cujo Produto Interno Bruto (PIB) iguala-se ao dos EUA, não se preocupa muito com a desvalorização do dólar. Seus juros, de 1% ao ano, não atraem capital especulativo, pois o mercado comprador está retraído. Lá, os grandes provedores de bens e serviços são os próprios países do bloco, principalmente a Alemanha, esta sim, superavitária no comércio intraeuropeu e mundial – é o segundo maior exportador depois da China. Está, com razão, furiosa, pois já não pode mais desvalorizar a moeda, a carregar a Europa do euro nas costas.

O Japão, a terceira economia global – parada há 10 anos –, com juros negativos, está desvalorizando o iene seguidamente para se defender. Os EUA não tinham outra saída depois da derrota do monetarismo e da desregulamentação dos mercados preconizada pelas escolas de Viena e Chicago, encampados pelos republicanos nas administrações Ronald Reagan, George S. Bush (pai) e George W. Bush (filho). A tese monetarista é: se há mais procura do que oferta, tome juros altos e o pessoal deixa de comprar; se há mais oferta do que procura, devem-se baixar os juros, o pessoal deixa de aplicar e passa a comprar, evitando a deflação (queda generalizada dos preços à falta de consumidores). O Estado – já fora da economia – não deve nem regular os mercados, diziam os “Chicago boys”. Daí a farra nos EUA. O resultado foi a crise e a estagnação. Os juros estão zerados, mas o consumo não cresce, tampouco a produção e o emprego. A deflação já começou. O caso é emblemático. Se a política monetária não funciona, a solução é jogar dinheiro na praça, para ter mais compras e maiores oportunidades de negócios. E se não aparecerem por lá, certamente existirão mundo afora.

O dólar desvalorizado vai atrás de compradores para seus produtos (que são de qualidade) e entrará ávido por lucros nos países que estão com os juros nas alturas. São poucos. O maior e o melhor para ganhar dinheiro fácil é o Brasil (juro primário nas alturas). Notam-se duas particularidades: 1) os EUA são o único país que tem a “senhoriagem” do dólar. É lá que eles nascem à vontade do emissor; 2) há o dólar comercial e a moeda como reserva de valor. No entorno da China, a moeda comercial é yuan; na União Europeia, o euro; para o Brasil – encravado na zona do dólar –, a moeda norte-americana diz respeito à exportação e à importação (comércio), aos investimentos, tanto o financeiro como o direto, e ainda é reserva de valor.

Dezessete países têm adotado medidas de intervenção em seus mercados de câmbio ou controles de capitais, segundo estudo do Peterson Institute for International Economics, centro norte-americano de pesquisa. Podem ser divididos em dois grupos: os que deveriam ser “censurados”, por sustentar moedas já extremamente desvalorizadas, e os que estão reagindo a uma sobrevalorização cambial. O primeiro inclui cinco países asiáticos, como a China e Cingapura; do segundo fazem parte países como Brasil, África do Sul, Índia, Turquia e Japão. De acordo com o estudo, o real precisa se desvalorizar em cerca de 8% em relação às moedas de seus principais parceiros para ser competitivo.

O Brasil deve tomar providências: desonerar a folha de salários, para compensar o câmbio; restaurar as agências regulatórias que Lula desarticulou, tornando-as garantes dos marcos legais (segurança jurídica); atrair capitais para investimentos em infraestrutura (estradas, portos, saneamento básico, energia hidráulica, eólica, da biomassa, petróleo, gás, aeroportos etc.); reduzir os gastos públicos e não aumentá-los acima do PIB, como ocorreu na administração Lula, abrindo espaço para a redução da carga tributária, da burocracia e dos juros primários a sobrecarregar o serviço da dívida (R$ 190 bilhões foram para os bolsos dos rentistas em 2010); fazer acordos para negociar em outras moedas (yuan, iene, euro, peso); diversificar nossas reservas; e construir barreiras ao capital especulativo – prazo de permanência e tributação pelo Imposto de Operações Financeiras (IOF) e Imposto de Renda (IR). Dilma Rousseff, ao confirmar Guido Mantega para o Ministério da Fazenda e defenestrar Henrique Meirelles do Banco Central (BC) agiu muito bem. O que precisamos é de uma âncora fiscal séria e responsável.

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