Finkelstein e Silberman

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ.

A visão de mundo cananeia sobreviveu e influenciou um povo que só então estava adquirindo uma identidade: os israelitas

Segundo a “Torá”, os israelitas vagaram pelo árido deserto do Sinai durante 40 longos anos. Ainda segundo a “Torá”, saíram do Egito, fora mulheres e crianças, cerca de 600 mil homens prestantes, uma assombrosa multidão. Quanta logística para comer, abrigar, suprir de água, cuidar da higiene, pastorear animais… Arqueólogos do mundo inteiro, especialmente israelenses, fizeram centenas de escavações no Sinai e as evidências encontradas foram negativas. Finkelstein e Silberman relatam algumas dessas expedições frustradas, não se encontrou um único caco ou fragmento, uma casa, traços de acampamento. Chegou-se a comprovar atividades pastoris na região até no 3º milênio a.C., mas com relação à época do êxodo nada foi encontrado. De acordo com a “Bíblia”, os israelitas acamparam durante 38 dos 40 anos de sua temporada no deserto (Números 33), no oásis em Ein El-Qudeirat, atual fronteira entre Israel e Egito, bem perto de outra fonte até hoje chamada de Ein Qadis.

Todas as escavações nesses sítios não trouxeram sequer um pedaço de cerâmica ou restos, que a multidão acampada ali deixaria em profusão. Outro lugar, Eziom-Geber, entre Eilat e Aqaba, ao Norte do Golfo de Aqaba, foi remexido e ofereceu pior resultado: o nada arqueológico. Em Números 21:1-3, diz-se que o rei cananita de Arad, que “habitava no Neguev”, atacou os israelitas. Vinte anos de escavações intensivas no sítio de Tel Arad revelaram restos de uma grande cidade da Idade do Bronze anterior, com cerca de 25 acres, mas nenhum remanescente na Idade do Bronze posterior, que é a idade do suposto êxodo de uma grande nação.

Os exemplos se multiplicam em desmentidos ao mítico êxodo. É o caso de Siom, rei da cidade de Hesbon, tido por amorreu, opondo-se à passagem dos israelitas por seus territórios, o que gerou batalhas vencidas por estes (Números 21:25-26 e Deuteronômio 2:24-25). Escavações em Tel Hesbon ou Edom mostraram que no lugar não existiu sequer uma vila da Idade do Bronze posterior. Diz a “Bíblia” que, quando o povo israelita passou pela Transjordânia, enfrentou a resistência de moabitas, edomitas e amonitas. Contudo, o planalto transjordaniano – segundo os mapas arqueológicos modernos – era pouco habitado naquela época, não havia muitas pessoas, apenas algumas famílias isoladas e pequenas, como grãos de areia.

Do exposto, restam duas conclusões. Primeira: os lugares referidos no Êxodo, e mesmo as pessoas e acontecimentos, não são inventados, mas são da época da ascensão de Judá, ou seja, foram elaborados no século 7 antes de Cristo, e não por Moisés. Segunda: é mais crível que o amálgama de três fatos históricos reais tenha ensejado os lendários relatos bíblicos relativos ao êxodo, a saber: a) a memória coletiva da expulsão dos hicsos (semitas, principalmente cananeus) do delta leste do Nilo e a tomada da capital, Avaris, e a sua atropelada volta para Canaã; b) o regresso de um pequeno número de cananeus, em época mais recente, que estavam no Sinai pastoreando e até mesmo trabalhando para os egípcios na construção de fortes e obras civis; porém, já influenciados pelo “príncipe” exilado do Egito (Osarip), mais tarde magnificado com o nome de “Moisés”, o suposto criador da “Torá”, que em hebraico significa “lei”; c) a memória da arrasadora incursão dos Povos do Mar, por volta de 1100 a.C., que tornaram Ugarit e as cidades costeiras de Canaã. Ao que parece, Josué, os deuteronomistas, atribuíram ao famoso comandante destruições que ele não patrocinou, aludindo a cômoros. Em 620 a.C., tempo do rei Josias, invertendo a história num trabalho monumental, foi escrita a “Torá”, até então oral e vária.

Cohn nos mostra Javé surgindo nas cercanias de Ugarit: entre os dois grandes centros de civilização, o Egito e a Mesopotâmia, estendia-se a entidade geográfica e cultural que na “Bíblia” é chamada de terra de Canaã e que os historiadores atuais denominam Síria-Palestina.

Até bem recentemente, tudo o que sabíamos da visão de mundo cananeia se baseava nos polêmicos comentários dos profetas hebreus. Essa situação alterou-se com a descoberta, em 1929, sob uma colina conhecida como Ras Shamra, dos restos da cidade-Estado de Ugarit. Situada no litoral sírio, na altura da extremidade setentrional de Chipre, Ugarit era o centro das rotas comerciais entre a Mesopotâmia, o Egito e o Mediterrâneo. Nessa metrópole, gente de todas as grandes civilizações da Idade do Bronze tardia, tanto indoeuropeias como semitas, entravam em contato e trocavam ideias e histórias.

No século 12 a.C., a economia entrou em colapso, as aldeias foram abandonadas e as cidades-Estado – não mais protegidas por um Egito que estava ele próprio enfraquecido – revelaram-se incapazes de evitar que a região fosse invadida pelos povos do mar originários da Anatólia e das ilhas do Mar Egeu (gregos).

Apesar disso, a visão de mundo cananeia sobreviveu e influenciou um povo que só então estava adquirindo uma identidade: os israelitas.

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