Depois do vírus

O que virá depois da pandemia com o emprego e a renda é preocupante. Tudo indica uma depressão econômica de incerta duração.

Seguir-se-á uma tremenda recessão econômica? Seria uma benção. Vai ocorrer uma profunda depressão. Não tenho competência para saber sobre a geopolítica após o surto do coronavírus, a não ser a China, que já debelou a epidemia. Recuperará a queda de seu PIB. Seguirá como potência mundial emergente, capaz de suprir os mercados de produtos industrializados (a Califórnia continuará a receber de lá 30% de seus chips).

Os médicos chineses certamente permanecerão na Itália na fase pós-traumática para evitar erros e certamente abrirá linhas de crédito para países necessitados, pois continuará precisando de mercados para vender e alimentos para comprar. Mas o resto do mundo vai se recuperar rapidamente? A depender do nosso presidente, sim. Trata-se de “um resfriadinho”.

O Eduardo Bolsonaro é um ser tão vil e ignorante que desconhece o quanto o mundo e o Brasil precisam da China. Que o Trump tema a sua ascensão inevitável é natural, mas que o Dudu cabeça de mosca expila ódio pelas narinas contra a China é caso a ser examinado por psicanalistas. Disse que a China fez de propósito o ocultamento do surto do coronavírus.

Seu pai foi mais inteligente ao constatar o óbvio: a epidemia começou na Província de Hubei. Faltou dizer que Hubei está no centro da China. Os primeiros ameaçados eram os demais chineses, mais de 1 bilhão. Outra teoria da conspiração e, por isso, não crível, insinua que foram os EUA que criaram o vírus em laboratório e o puseram na China, outra balela.

E convém relembrar que foi um comissário de bordo de N. York o grande exportador da Aids mundo afora. E, por isso, vamos culpar os americanos? Convidava certos passageiros estrangeiros a frequentar as boates fervilhantes de gays de NY. Está no livro de Lapierre sobre o tema. É natural que os governos demorem a declarar epidemias para evitar o pânico. Como fez a China, por 10 dias.

Contudo a questão a abordar é outra. Vírus existem em todo lugar, especialmente em climas mais quentes, sem excluir os que gostam do frio. Será que estamos num tempo de muita poluição e superpovoamento? Outros surtos, até mais mortais, estão no plano de possível e do plausível? A ciência precisa nos dizer e achar mecanismos de defesa. Aposto que os americanos já estão bolando ao menos 10 filmes sobre o tema e os chineses, japoneses e alemães pesquisando virologia.

Outras questões merecem atenção. Em que medida – se a pandemia se prolongar demais – os meios de produção, as cadeias de produção (inputs e outputs) se desorganizarão, a ponto de colocar em risco o abastecimento das populações? Fomes endêmicas são mais do que possíveis e até já existem. É hora de criar um fundo internacional, via ONU.

O vírus coroado, verdadeiramente, nos trouxe muitas matérias que precisam ser repensadas. Uma delas são os sistemas de saúde. O da Itália, para muitos o melhor da Europa (quando precisei dele, há muito tempo, em Florença, fiquei impressionado com a sua eficácia e estranhei certos protocolos. Um deles proíbe farmácias de aplicar injeção). Mas não faltam postos médicos gratuitos.

Pois bem, em tempos normais, ele funciona a contento. Em épocas de crises agudas, nenhum sistema de saúde funciona. Então é preciso pensar em propostas minimamente eficazes para o enfrentamento de epidemias. Quase sempre, as catástrofes envolvem os sistemas respiratórios e digestivos (intestinos) e a pele. O mundo e a OMS devem colocar questões desse tipo em primeiro plano.

Contudo, o presidente falar em rede nacional que a Covid-19 é uma gripezinha é de uma irresponsabilidade total. Não se trata de gripe, mas de pneumonia virótica. Daí a sua gravidade. Os casos nem tantos são. O Direito Internacional Público e Privado, bem como os protocolos internacionais, devem voltar-se agora para a área de saúde, em todos os aspectos, inclusive o de facilitação das transações bancárias e o disciplinamento mais atento das indústrias farmacêuticas, cujo âmbito é internacional, obrigando-se em situações dramáticas a fornecer remédios e sua transportação (evidentemente serão ressarcidos, as que forem da livre iniciativa, sob parâmetros pré-estabelecidos).

Mas a questão mais dramática a colocar contra a parede os sistemas econômicos capitalistas (99%) é a de acudir, com rapidez e solidariedade, os países pobres da Ásia, Américas Central e do Sul e, principalmente, África. Fala-se muito em cristianismo e amor ao próximo. Vamos ver essa questão quando os afetados sejam as populações pobres do planeta azul, como o viu maravilhado Yuri Gagarin, o primeiro homem a ver a Terra do espaço, branca e azulada, como a bandeira de sua pátria, que muitos desavisados ainda acham que é um pais socialista sem sê-lo.

De nossa parte, o dólar vai a R$ 5. Bom para as exportações, ruim para a importação de insumos, a encarecer os preços finais para os consumidores brasileiros. O que virá depois da pandemia com o emprego e a renda é preocupante. Tudo indica uma depressão econômica de incerta duração.

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