China e Brasil crescem

Brasil e China - economia

Cresci ouvindo a cantilena de que as relações de troca no comércio internacional eram assim: os subdesenvolvidos vendiam produtos primários e matérias-primas cada vez mais baratas e os desenvolvidos bens manufaturados e serviços de alto valor agregado, cada vez mais caros, daí a teoria da dependência gestada na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). A tese tinha procedência, mas está em superação. A China é a prova. Nação de campônios torna-se socialista em 1949 e até 1974 atravessou dois períodos de fome intensa, com milhões de mortes. Deng Xiaoping, o idealizador da China moderna, dizia que não importava a cor do gato, contanto que comesse os ratos do celeiro. Pela primeira vez na história uma economia de mercado e competição (pluralismo econômico), sob rígida condução unipartidária (monolitismo político), tornou-se um sucesso e fez daquele país a segunda e mais completa economia do mundo em três décadas tão somente, derrubando todos os tabus do liberalismo. O gato eficaz de Xiaoping começou com simples zonas econômicas especiais de exportação, atraindo fábricas do mundo inteiro.

A China se mostra com a infraestrutura quase pronta: aeroportos, portos, rodovias, ferrovias, saneamento básico, usinas de energia, indústria de despoluição etc. Em educação, há cinco anos, os da província de Xangai tiram os primeiros lugares. O sistema de saúde funciona. A mobilidade urbana ora é sofrível, ora satisfatória, multimodal, levando-se em conta o gigantismo das zonas metropolitanas, a maior com 42 milhões de pessoas. O maior êxodo rural da história se faz ordenadamente, sem gerar favelas. A crise mundial obrigou a China a iniciar mais cedo a transformação de sociedade poupadora em consumista. A China reagiu ao encolhimento dos EUA, Japão e Europa com investimentos diretos no país. Semanas atrás inaugurou a maior ponte marítima do mundo, com 52 quilômetros.

A recessão mundial continuará por três ou quatro anos. Decidiu-se incentivar o mercado interno, estruturar uma economia de consumo (1, 4 bilhão de consumidores em 2017). As famílias poupam quase a metade do que ganham (40% do PIB) segundo o pacto de gerações parentais. Os filhos poupam e cuidam dos pais (confucionismo). Isso explica (I) a inflação baixa; (II) os juros reais perto de zero que remuneram essa colossal poupança e (III) a sua captura pelos bancos estatais e informais (shadow banking), que (IV) fornecem crédito barato aos governos provinciais, empresas estatais e particulares, nacionais e estrangeiras, voltados a investimentos em infraestrutura e as exportações para o resto do mundo, ora caindo. As consequências são superávits na balança comercial (declinantes com a crise) e reservas de US$ 3,8 trilhões. No reverso da moeda tem-se inadimplência bancária (excesso de casas, estradas, shoppings subutilizados à espera de usuários e consumidores), com o Banco Central obrigando os bancos a registrar os financiamentos não pagos nos balanços e, consequentemente, secando o crédito, de modo a frear o crescimento do PIB a 7% ao ano (meta do governo).

A “nova economia” será possível pela “política dos três passos”: (I) aumentar os salários e poder de compra, encarecendo os produtos e prejudicando a competitividade, daí a onda em inovação; (II) criar uma rede previdenciária (fundos de pensão como os americanos; fundos fechados de previdência, como os brasileiros, tipo Previ, Funcef etc.) a liberar a poupança das famílias para o consumo (e absorver os investimentos em moradias e edifícios comerciais); (III) aplicar parte das reservas em investimentos no exterior, para assegurar novos mercados e suprimentos de matérias-primas e produtos agrícolas. Mais investimentos na própria China gerarão saturação (oferta superior à demanda). Quem nos dera tamanha sobra de infraestrutura. Basta ver a rede impressionante de trens-bala. É um parceiro valioso. Devemos torcer para que dê certo e que os EUA e a Europa se recuperem. O euro, a libra e o iuan não se desvalorizaram perante o dólar.

Nós, ao revés, estamos condenados a crescer 3% ao ano. Nossa poupança interna é pífia (pública 2% e privada 16%), daí que investir em infraestrutura é custoso, os fluxos de capital diminuíram, as contas nacionais estão no vermelho. Mas somos o quarto mercado de automóveis, 200 milhões de pessoas e 12 milhões de moradias por fazer. Indústrias para prover tudo isso preservarão nosso parque. Nosso forte está em fortalecer com estímulos a agroindústria e o setor minerário, em que somos competitivos, com áreas ainda virgens e aumentos possíveis de produtividade. Um punhado de alimentos, uma tonelada de minério e energia valerão mais do que caixas de chips e de tablets. Seremos celeiro em minerais, petróleo, gás, biocombustíveis, alimentos naturais e processados, gerando cadeias produtivas e serviços diversificados.

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