Carnificinas políticas

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ

Não consigo me esquecer do extermínio atômico dos moradores de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, ordenado pelos EUA. Precisava mesmo?

Meu espírito se enche de tristeza. Outra guerra, considerada preventiva e defensiva por Moscou, eclodiu no mundo. Então viajo no tempo e vejo os morticínios feitos pelos europeus, sejam ingleses, espanhóis ou portugueses, que quase exterminaram os povos indígenas. Aqui foi menos: o português que não trouxe família teve que se acasalar com as índias e, mais tarde, com as negras. Mais tarde, entretanto, vieram como colonos familiares, desde nossa independência, em 1821.

Não consigo me esquecer do extermínio atômico dos moradores de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, ordenado pelos EUA. Precisava mesmo? Três bombas na baia de Tóquio não bastariam para convencer o Japão a se render? Os campos de concentração dos alemães na 2ª Guerra Mundial constrangem nossas almas, assim como 16 milhões de mortes (10 milhões de civis) que Hitler impôs ao povo russo.

Não está tão longe assim o tempo do colonialismo, quando a Inglaterra, a Espanha, a França e Portugal dominaram e mataram povos inteiros na África, Américas Central e do Sul e da Ásia (aí incluídas a Índia e a China).

Guerras esmagadoras no século 20, a primeira e a segunda guerras mundiais e as guerras de libertação da colonização, como ocorreu em Angola, China, Argélia, Vietnã, para citar as mais duras, amarguram todos pelas mortes de jovens e mulheres e idosos.

E a longa guerra do Vietnã (50 anos), primeiro contra a França e depois contra os EUA, levada a efeito com heroísmo e milhões de vidas perdidas de jovens, homens e mulheres combatentes pela liberdade do país? A Argélia teve que perder vidas para se libertar das garras francesas e se quedou exangue até hoje com tanta destruição feita pela França. É de poucos meses a saída forçada dos EUA do Afeganistão, com os talibãs nos seus calcanhares, a nos lembrar a apressada saída de Saigon, na guerra do Vietnã.

O bombardeio da cidade de Bagdá (existente há 10 séculos), tão colorida de sangue, foi visto na tv pelo mundo inteiro e não causou a repulsa que hoje a consciência das pessoas comuns sentem por Kiev. Em Bagdá, os mortos e a destruição foram 20 vezes maiores do que ocorre em Kiev, cujo alvos são quartéis, aeroportos e instalações militares (erros de cálculo sempre ocorrem, mas não tenho visto pelas tvs ocidentais morticínio de civis). Vi fugitivos e jovens aparecidos nas emissoras ocidentais. É que o noticiário é editado nos EUA.

A Rússia, há muito tempo, 10 anos pelo menos, nega à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), criada em 1948, logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, instalar-se na sua fronteira sul.

Dá-se que tendo a Otan na mão, os EUA, como o principal parceiro de defensiva, tornou-se ofensiva. Os fatos são claros. A Otan colocou bases na Polônia e na Alemanha visando à Rússia. É fácil deduzir que uma Ucrânia na Otan implicaria mísseis no sul da Rússia (com foguetes nucleares).

É esse lado da guerra que ninguém salienta, salvo especialistas. Contudo, a resposta da Rússia está sendo brutal, a provocar um êxodo que, no final, abrangerá cerca de 4 milhões de ucranianos, que terão que ser absorvidos pela Europa e EUA, sem falar na destruição de portos, aeroportos, instalações elétricas e estradas na Ucrânia destruída. Era para ser um puxão de orelha, mas tem sido uma surra de vara jamais vista, sob o olhar covarde da Otan, que não quer guerrear pela Ucrânia (risco geopolítico).

Mas a guerra tende a acabar em 20 dias. A Ucrânia precisa de outro presidente que seja a favor da CEE (Comunidade Econômica de Nação da Europa), mas sem participar da Otan.

É como deseja Putin, em nome da segurança da Rússia, da Bielorrússia e do Cazaquistão. A Ucrânia é a fronteira hostil que a Rússia reluta em aceitar. Esse é o xis da questão.

Porque a Otan, organização das nações do Atlântico Norte, nela botou a Turquia, lá no Oriente, no Mar Negro, em frente à Rússia, e ansiou por quase 1.500 quilômetros de fronteiras da Ucrânia, no Sul da Rússia? Putin sentiu-se cercado e reagiu brutalmente. Voltou a dominar a Crimeia, tomada da Ucrânia. Desde então, o clima azedou, justo entre países de origem comum. Antes de Moscou houve a Rússia Kievana, fundada pelas tribos dos boiardos eslavos, vindos das planícies persianas e além! Em verdade, a Ucrânia sempre foi uma região da Rússia. De lá saiu Kruschev.

Salvo o medo de agora, a Suécia e a Finlândia não cogitaram entrar para a Otan por serem vizinhas da Rússia, e nada aconteceu ali. É comum pegar o trem que faz o percurso Helsinque a São Petersburgo, há lustros.

O equilíbrio geopolítico foi quebrado pelas ambições militares da Otan e uma Ucrânia imprudente.

O preço, a destruição total de um país. Kruschev fez bem em retirar a base soviética em Cuba. Caso contrário, Kennedy destruiria o país inteiro, como prometia… Quem se lembra? Pois bem, Kruschev, que presidia a Rússia, era ucraniano. Assim, é perceptível que tantos os EUA quanto a Rússia não toleram bases de mísseis atômicos a metros de suas fronteiras.

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