A vacinação e o presidente

São impressionantes as declarações quase diárias do presidente Bolsonaro sobre a atual pandemia, suas consequências e a vacinação. Como se fosse doutor no assunto, suas opiniões deixam perplexos os especialistas, que não conseguem explicá-las.

Sobre as vacinas contra o novo coronavírus, o que muitos temiam parece iminente: os países pobres e os em desenvolvimento, acomodados nas segunda e terceira classes da nau dos infectados, terão que aguardar os da primeira serem atendidos com serviços de qualidade. Bolsonaro disse que a melhor vacina é pegar o vírus, fazendo propaganda contra Doria, de São Paulo, estado onde nasceu. Disse mais: “O Brasil está quebrado”. Como o resto do mundo nos verá doravante? Isso é lá coisa que se diga aos quatro ventos (é um louco)?

O papa Francisco já havia se manifestado sobre o problema, ainda em agosto, quando previu o inusitado cenário já se desenhando e chamou nossa atenção, ao declarar: “Seria triste se a prioridade da vacina da COVID-19 fosse dada aos mais ricos. Seria triste se isso se transformasse na prioridade de uma nação e não fosse destinado a todos”. Mas a realidade só fez confirmar o prognóstico do sumo pontífice.

Com receio de que se desencadeasse disputa pelos sucessos das pesquisas relacionadas, desenvolvidas somente em estruturas industriais do Primeiro Mundo, cerca de 150 países se mobilizaram para formar uma coalizão de acesso universal aos antídotos produzidos.

A iniciativa, batizada de Covax, incentivada e financiada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e assistida pela Gavi (Gavi, a Aliança das Vacinas), esta última amparada pela Fundação Bill e Melinda Gates, não arrecadou recursos suficientes para adquirir a quantidade de doses que garantisse o acesso total (o que atrasará a distribuição entre os países pobres e os em desenvolvimento, nosso caso).

Mas o Brasil tem SP, com a vacina chinesa e o Instituto Butantan, originalmente criado para desenvolver antídotos para venenos de cobras.

Por essa e outras, são impressionantes as declarações quase diárias do presidente Bolsonaro sobre a atual pandemia, suas consequências e a vacinação. Como se fosse doutor no assunto, suas opiniões deixam perplexos os especialistas, que não conseguem explicá-las. Essa última, de sugerir que quem tomar a vacina deve assinar um termo de responsabilidade contra eventuais efeitos colaterais, é motivo de preocupações (leva uma parte da população a não se vacinar, impedindo a imunização total).

A luta contra a mortal infecção está no auge. Conheça as vacinas e os países produtores.

Ad26C0VS1(J&J) – EUA, Ad5-nCOV (CanSino) – China, AdimrSC-2f (Adimmune) – Taiwan, AGO301-COVID19 (AnGes) – Japão, AZD1222 (AstraZeneca) – Reino Unido/Suécia, BNT162b2 (Pfizer/BioNTech) – EUA/Alemanha, CoronaVac (Sinovac) – China, COVAXIN (Bharat/ICMR/NIV) – Índia, CVnCOV(Curevac) – Alemanha, EpiVacCorona (VECTOR) – Rússia, GRAd-COV2 (Reithera/LeukoCare/Univercells) – Itália, LUNAR COV19 (Arcturus) – Cingapura, mRNA 1273 (Moderna) – EUA, MVC-COV1901(Medigen/Dynavax) – Taiwan, NVX-CoV2373 (Novavax) – EUA, SCB-2019 (Clover/GSK) – China/Reino Unido, Sputnik V – Rússia, UB-612 (Covaxx) – EUA, Vaccine (Medicago/GSK) – Canadá/Reino Unido, Vaccine (Sanofi/GSK) – França/Reino Unido, Vaccine (Wuhan/Sinopharrn), BBIBP-CorV (Beijing/Sinopharm) – China, Virai vector (DZIF/IDTBiologika/ Ludwing-Maximilians) – Alemanha, VLA2001(Dynavax/Valneva) – França.

A China e a Rússia estão se tornando players globais no fornecimento de vacinas contra a COVID-19 para países emergentes e pobres, em meio à emergência para imunização contra o vírus, que continua matando milhares de pessoas por dia. De um total de 211 contratos de venda ou em negociação de bilhões de doses, por diferentes laboratórios, Pequim e Moscou respondem por 76, atendendo a países desesperados e sob pressão diante da intensificação das contaminações.

Dos 42 países que já estão vacinando contra a COVID-19, 36 são de alta renda e apenas seis de renda média mais alta. Ou seja, há “um claro problema, países de renda baixa ou média não estão recebendo ainda a vacina”, afirmou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, na sexta-feira.

Na corrida contra o vírus, alguns países parecem estar deixando de lado a abordagem mais cautelosa para autorizar e comprar vacinas. É o caso da Coreia do Sul e da Austrália, que aceleraram os prazos para a imunização diante do aumento de contaminações. A Índia, com a maior capacidade mundial de produção – 3,5 bilhões de doses por ano e atende a vários laboratórios – começará uma gigantesca campanha de vacinação no dia 16.

A posição de bom número de países contrasta com a da administração de Jair Bolsonaro. Depois de ter ironizado a vacina chinesa, o governo recuou, mas continua sem ter a garantia de imunização para a maior parte da população brasileira.

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