A crise energética chinesa

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e da UFRJ

Não se prevê, no entanto, que as medidas do governo ponham fim, de imediato, às quedas de fornecimento de energia elétrica

O crescimento desbragado da China, a crescente segunda economia do mundo (e cresce o triplo da primeira, os EUA) baseada prioritariamente no carvão abundante em seu território e adjacências, entrou em crise, apesar dos esforços do governo.

Primrose Riordan, Edward White e Harry Dempsey, correspondentes do Financial Times de Londres, Seul e Hong Kong, nos fornecem informações e dados sobre o assunto.

Os donos de fábricas na China e seus clientes no mundo inteiro foram orientados a se preparar para o fato de que interrupções do fornecimento de energia passarão a fazer parte da vida, num momento em que o presidente do país, Xi Jinping, obstinadamente, tenta acabar coma dependência da economia chinesa, a segunda maior do mudo, do carvão.

Apesar da enxurrada de intervenções do governo central, encabeçadas pelo premiê Li Keqiang, tanto as indústrias chinesas quanto as multinacionais foram conclamadas a aumentar a eficiência energética de suas fábricas e a acelerar os investimentos em energia renovável, seja etanol, eólica ou solar, mas isso já ocorrendo leva tempo. Empresas americanas na China insistem em usar carvão por uma questão de custos. O governo não tem na China o controle absoluto sobre os agentes privados e age por indução de incentivos e sanções.

A Trueanalog Strictly OEM, uma fábrica de alto-falantes nas redondezas de Guangzhou, é emblemática da crise representada pelos apagões frequentes e que já atinge as exportadoras. Seu proprietário, Philip Richardson, disse que sua empresa vive “tentando recuperar o atraso”.

“É o efeito dominó: quando você corta a energia elétrica afeta diretamente as colas nas linhas de produção, temos de reiniciar a moldagem, isso tira de 20% a 30% da produtividade no dia. É um incômodo mesmo”, disse ele.

Na semana passada, o governo chinês determinou uma acelerada expansão das minas de carvão. Também baixou reformas de mercado abrangentes, ao obrigar todas as usinas de energia elétrica a carvão a venderem no mercado de atacado, ao autorizar que os preços da energia elétrica subam nada menos que 20%, e ao elevar os tetos de preços que beneficiavam alguns grandes usuários. A reformulação do mercado é “um enorme passo” na direção da liberalização do setor de energia elétrica, disse o analista David Fishman, do Lantau Group.

Não se prevê, no entanto, que as medidas do governo ponham fim, de imediato, às quedas de fornecimento de energia elétrica. Juntamente com as tensões observadas no setor de imóveis, os episódios de escassez incorporaram uma grande dose de incerteza aos números do crescimento chinês no terceiro trimestre, a serem divulgados.

Comparativamente à abrasadora expansão de 7,9% registrada no segundo trimestre, as projeções dos economistas consultados pela Bloomberg variam entre uma marca máxima de 5,8% e uma mínima de 4,5%.

Em uma concessão à constatação de que os problemas não poderão ser resolvidos de imediato, autoridades de Guangdong alertaram, extraoficialmente, que o racionamento provavelmente persistirá.

Também estimularam empresas a empregarem sua própria geração de energia elétrica, o que provavelmente envolverá uma utilização ainda maior de diesel para geração de energia.

Nathan Stoner, que dirige as operações do grupo americano de mineração e do setor de energia elétrica Cummins na China, disse que “embora haja algumas oportunidades”, as operações da empresa foram limitadas por cortes de energia elétrica que atingiram suas fábricas e as de seus fornecedores de peças.

No Reino Unido, Steve Levy, diretor-executivo da varejista britânica Heat Outdoors, disse que todas as suas fornecedoras chinesas de aquecedores de espaços ao ar livre e de secadoras de mãos, principalmente sediadas em Jiangsu e em Guangdong, com exceção de uma, enfrentaram desativações semanais parciais.

Luedi, da Bain, alertou as pessoas a não “se deixarem enganar” pela reversão da China na direção do carvão para gerir a crise.” “O eixo do gráfico é claro. Mas há muita volatilidade em torno do eixo”, diz ele. “São necessários só alguns pontos percentuais a mais de crescimento da economia para levar o sistema temporariamente ao caos.”

Seja lá como for, a China deve obrigar-se a diminuir o crescimento e diversificar suas fontes de suprimentos. As usinas atômicas estão descartadas pelo tremendo perigo que representam num país com quase um 1,4 bilhão de habitantes.

Ao que se sabe, há uma pressão grande dentro do Partido Comunista chinês para diminuir a poluição que o carvão provoca, apesar do uso maciço de filtros.

Quando lá estive, vi in loco em Nonging (Nanquim em cantonês) a poluição nos ares da cidade, embora não tenha tossido ou avermelhado os olhos, talvez pelo pouco tempo de exposição.
De todo modo, este é o próprio estado de coisas que mais incomoda o governo chinês.

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