A catástrofe de julho

O futebol não é tudo. Nem só de circo vivemos. O povo quer progresso, paz e organização. Nossos jogos decisivos são as eleições.

Dilma entrega a taça da Copa das Confederações 2013. Fonte: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Dilma entrega a taça da Copa das Confederações 2013. Fonte: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Para os brasileiros, os 7 x 1 foram uma catástrofe, igual a uma derrota definitiva na guerra. Nos acostumamos a ver na Seleção “a pátria de chuteiras” (Nelson Rodrigues). Mas o futebol é apenas um esporte, como o vôlei e o basquete, cujas vitórias e derrotas não afetam a nação.

Ao menos, ao contrário de outros latino-americanos, não agredimos os adversários. Perdemos com esportividade. A torcida, mesmo em prantos, aplaudiu a equipe alemã. Estamos nos civilizando.

A culpa, ao meu sentir, não foi da equipe. Os nossos jogam nos melhores times da Alemanha, Espanha, Inglaterra, Itália e alhures. Nos faltaram treinos e conjunto ou, noutras palavras, treinador. Felipão é teimoso e ultrapassado. Basta ver suas crenças: ser “paizão” e acreditar em emoções, união, torcida e voluntarismo para ganhar jogos. Nada disso funciona, a não ser na sua cabeça!

O “football association”, como o nome indica, exige um conjunto harmonioso de jogadores utilizando sistemas eficientes em campo, fruto de metódicos treinamentos. Felipão não teve sistema, nem treinou o time, ao contrário dos disciplinados alemães. Eles jogam com três beques, dois atacantes e cinco meio-campistas, que se defendem em bloco e partem para o ataque em alta velocidade, sem errar nos passes e chutes. É extenuante e trabalhoso, mas funciona. Jogam assim em qualquer lugar, contra qualquer time. O Felipão abriu os pontas e isolou o centroavante. Deixou o miolo de campo alemão atacar em massa a nossa defesa perplexa. Isso não deveria acontecer. Sobravam alemães dentro da área. O resultado era mais do que previsível. Imaginei 3 x 1.

O excesso, porém, surpreendeu. O segundo tempo foi melhor, não porque os alemães pararam e sim porque congestionamos o meio de campo e marcamos ao pé (ainda fizeram dois gols). Discordo do equilibrado técnico argentino ao dizer que o futebol é o mais ilógico dos esportes coletivos e que “essas coisas” acontecem. Nós merecemos o placar. A comissão técnica é a principal culpada. Concordo com o jogador alemão que lamentou e disse que o Brasil não merecia perder daquele jeito. É seu Felipão! Ninguém esperava nem mesmo você. Essa conversa de “apagão” é culpa sua, que não lida bem com as energias. Assuma seu erro! Todo comandante que põe a culpa nos comandados é covarde!

Enquanto os jogadores tratarem o treinador como “professor”, sem se rebelar, como aconteceu com Feola no passado, e o povo acreditar nas “presidentas” sem espírito crítico, nosso país não evoluirá. Na política, na administração e no futebol agimos desorganizadamente, somos adeptos dos improvisos e, por isso, as coisas não funcionam.

Tomara que a “catástrofe” nos torne mais frios e analíticos. Lula quis a Copa de caso pensado para ajudar seu obsessivo projeto de poder e Dilma gastou horrores para satisfazer seu chefe e mentor, sem planejamento ou racionalidade.

Obras da  Arena Corinthians. Fonte: Miolo

Obras da Arena Corinthians. Fonte: Miolo

Os legados da Copa? Algumas sofríveis obras de mobilidade urbana, aeroportos maquiados por estarem obsoletos, estádios custosos para ficar no “padrão Fifa”, muita corrupção e superfaturamentos! Além disso, isenção de impostos para a Fifa. Dizem que lucrou muitíssimo! Logo veremos o balanço de lucros e perdas. Para culminar, quatro “elefantes brancos”: em Brasília, Natal, Manaus e Cuiabá, lugares sem times de futebol para jogar o campeonato da Primeira Divisão, além de obras inacabadas por toda parte. A Copa foi boa para o Corinthians. Lula deu-lhe de presente o Itaquerão, com desabamentos e muitos mortos em sua construção às pressas (sempre o improviso).

Catastróficas foram, isto sim, as perdas de operários e agora de vidas inocentes no desabamento do viaduto em Belo Horizonte. Não, Sr. Prefeito, derrotas são explicáveis, mas deslizamentos de passarelas e queda de viadutos são erros imperdoáveis. Não adianta abrir “rigoroso inquérito”. Queremos punições exemplares. Dinheiro público e vidas humanas valem um milhão de vezes vitórias esportivas e obras apressadas, improvisadas, malfeitas, para dar a impressão de que somos capazes.

O futebol não é tudo. Nem só de circo vivemos nós. O povo quer progresso, paz e organização. Os nossos jogos decisivos são as eleições para presidente, governadores e prefeitos. Maldita seja para sempre a Copa da humilhação! Quanto ao futuro, que o presente nos sirva de lição. No esporte como na vida, esforço e organização são fundamentais. A vitória embriaga, a derrota ensina. Levantemos a cabeça. Dias melhores virão.

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