Vai Ano Velho, vem Ano Novo

O lado bom deste ano está a distâncias incomensuráveis do que se lhe opõe

José Roberto Vieira

Os livros que, nos últimos anos, selecionamos para próxima leitura, compõem cinco grandes pilhas, num canto da biblioteca. Mas, há muitos anos que não conseguíamos ler tanto quanto o fizemos neste. Também escrevemos bastante neste ano. Não são poucos os que apontam aspectos positivos da quarentena a que foram e estão submetidos; e seria injusto que não o reconhecêssemos. Chegamos, inclusive, a começar uma grande arrumação nos 13.000 volumes da nossa biblioteca, embora, por ora, pouco mais do que “começamos”.

Contudo, o lado bom deste ano está a distâncias incomensuráveis do que se lhe opõe.

A vida social e política feneceu a olhos vistos. Com os assaltos quase diários à nossa democracia, temerários e temerosos, que nos enchem de receio pelas eventuais fragilidades, de apreensão pelos riscos de retrocesso e de medo pela navegação rumo ao norte equivocado. Com os arroubos de quase todo dia dos populismos governamentais, perturbados e perturbadores, que não escondem nos ver como tontos, tolos e parvos. Com as atitudes e demonstrações anticientíficas e obscurantistas, quase quotidianas, que nos fazem cogitar de que toda a idade média tenha sido mera preparação para estes dias em que a ideia de civilização jaz olvidada e obliterada.

Mas a tônica de 2020 foi estabelecida, por óbvio, pela pandemia e pela quarentena.

São bíblicos e significativos os antecedentes da quarentena: os 40 dias e as 40 noites do dilúvio (Gn. 7, 4 e 12); os 40 dias e as 40 noites do jejum de Moisés no Monte Horeb, antes de receber as Tábuas da Aliança (Dt. 9, 9); os 40 anos do êxodo dos hebreus pelo deserto, em busca da terra prometida (Ex. 16, 35); a caminhada de 40 dias e 40 noites do profeta Elias pelo deserto, ao encontro do Senhor no Monte Horeb (1Rs. 19, 8); o retiro de 40 dias de Jesus no deserto, no início de sua missão (Mc. 1, 13; Lc. 4, 2); a permanência pontual de Jesus por 40 dias na companhia dos discípulos, após a ressurreição (At. 1, 3); e, hoje, os 40 dias da quaresma, celebrados pela Igreja em preparação para a Páscoa da ressurreição .

Mas a quarentena que padecemos neste ano, mesmo que na comodidade de nossas casas, no recôndito de nossos lares, cercados de pessoas queridas e às quais queremos, esteve, algumas vezes, perto de prisão domiciliar. Não é fácil compensar o recolhimento induzido, a clausura obrigatória, a detenção forçada, a reclusão imposta, a cadeia impingida, o cárcere constrangido e o calabouço imputado. Tudo a laborar e colaborar para o embaraço da nossa emancipação, para o obstar da nossa independência, para o coibir da nossa autonomia e para o tolher da nossa liberdade. Razão seja reconhecida a SÃO COLUMBANO, o missionário irlandês, fundador de mosteiros e santo dos séculos VI e VII – “Se tirarem a liberdade de alguém, tiram-lhe a dignidade” – que explica porque essa quarentena nos ameaçou tornar menos dignos.

Não obstante, os seus males perdem estatura quando postos diante dos oriundos da pandemia que a provocou. Eis a sombra ameaçadora e o hálito pestilento do vírus que, pérfida e insidiosamente, invadiu, arrebatou e usurpou boa parte de nossas vidas, eclipsando os propósitos, desacorçoando a vontade, combalindo o ânimo, abalando a coragem, quebrantando o alento, prostrando o espírito e abatendo a alma. E sobretudo, minando-nos a saúde, deflagrando-nos os dramas e ceifando-nos as vidas.

O saldo é indubitavelmente negativo. Mas, conquanto tenhamos ou não sido assaltados e roubados em nossos afetos e amores, sobrevivemos, e sobreviveu a maior parte das nossas pessoas queridas; apesar da estranheza de uma das maiores ironias deste ano: o modo mais robusto de exprimirmos nosso carinho pelas pessoas que amamos é, justamente, manter-nos afastados delas! Este, porém, é o derradeiro dia deste derradeiro ano desta década. E hoje é o dia da utopia!

Não nos referimos àquela utopia que brota da ilusão, nutre-se da fantasia, cresce na ficção, amadurece na quimera e subsiste no devaneio. Estamos a aludir, isso sim, à utopia do cidadão ciente e consciente da realidade, aquele que é vocacionado para o furor virtuoso e disponível ao chamado da santa cólera ! Àquele bem descrito pelo FREI BETTO como “…um cidadão da utopia, impregnado da virtude da indignação”!

Afinal, como registrou NIKOLAI BERDIAEV, o filósofo russo, na assertiva que ALDOUS HUXLEY escolheu como epígrafe do seu “Admirável Mundo Novo”: “A vida marcha para as utopias…” .

E para aqueles que encaram as utopias como algo simplesmente remoto e inalcançável, dispomos da resposta poética de MARIO QUINTANA, no seu “Espelho Mágico”, que reputamos irretorquível:

Das Utopias

“Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!”

E porque a utopia e o sonho são necessários e urgem, despedimo-nos de 2020 e saudamos 2021, com os versos inspirados de AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA, outro inspirado poeta:

Vai, Ano Velho

“Vai, ano velho, vai de vez,
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um,
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.

‘Vade retrum’, pra trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,
a casa e o coração.
Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.

Vem, Ano Novo, vem veloz,
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nosso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso,
e sacia em nós a fome
– de utopia.

Vem na areia da ampulheta com a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se
se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol a gema do Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.
Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.
Entre flores de urânio
é permitido sonhar” .

Curitiba, 31 de dezembro de 2020 – Dia de S. Silvestre I.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACETI, Laura. Grande Libro dei Santi. Roma: Rusconi, 2013.
BETTO, Frei. Diário de Quarentena: 90 Dias em Fragmentos Evocativos. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.
BUTLER, Alban. Vida dos Santos de Butler. V. XII. Tradução: Attílio Brunetta. Petrópolis-RJ: Vozes, 1993.
CAVALCANTE, Pedro Teixeira. Mensagens dos Santos. São Paulo: Paulus, 2005.
DELANEY, John J. Dictionary of Saints. New York: Doubleday, 2005.
FARMER, David Hugh. The Oxford Dictionary of Saints. 5.ed. Oxford: University of Oxford, 2004.
HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Tradução: Felisberto de Albuquerque. 2.ed. São Paulo: Edibolso, 1976.
QUINTANA, Mario. O Aprendiz de Feiticeiro seguido de Espelho Mágico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. A Catedral de Colônia. In: Poesia Reunida: 1965-1999. V. 2. Porto Alegre: L&PM, 2004, p. 34-133.
SCHAUBER, Vera e SCHINDLER, Hanns Michael. Diccionario Ilustrado de los Santos. Tradução: Luis Miralles de Imperial. Barcelona: Grijalbo Mondadori, 2001.
SGARBOSSA, Mario. Os Santos e os Beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente. Tradução: Armando Braio Ara. São Paulo: Paulinas, 2003.
______. e GIOVANNINI, Luigi. Um Santo para Cada Dia. 11.ed. Tradução: Onofre Ribeiro. São Paulo: Paulus, 1983.
VAUX, R. de et al. Bíblia de Jerusalém. Tradução: Gilberto da Silva Gorgulho et al. São Paulo: Paulinas, 1981.

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