História e atraso 

Governo federal arrecada R$ 1,5 trilhão por ano e não temos fronteiras guardadas, nem educação ou saúde públicas

O livro Bandeirantes e pioneiros não explica os EUA mais desenvolvidos (PIB de US$ 15,6 trilhões) e o Brasil com menor desenvolvimento (US$ 2.3 trilhões, pelo poder de compra da moeda), e sétima economia do mundo. O livro em questão é prosa poética e não explica nem 2% das respectivas histórias econômicas. Caio Prado Junior, Pedro Calmon, Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré nos explicam as economias desses dois países continentais, nos três últimos séculos.

Entre mitos e causas reais, a saga dos bandeirantes foi mais eficaz que a dos pioneiros (e seus seguidos fracassos) criando um ecúmeno – no coração do Brasil nas minas e nas gerais. Portanto, até o título do livro é infeliz. O que realmente importa é o ano de 1800 e o século que se lhe seguiu. Nessa época já não havia bandeirantes nem pioneiros. Para nós, foi um século perdido (para as monoculturas e o escravismo). Para eles, o referido século preparou o futuro entre dores, depressões, guerras, racismos e desigualdades. Um duro caminhar. Nós dormimos em berço esplêndido.

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Diferenças do desenvolvimento econômico entre Brasil e EUA podem ser explicados olhando para o ano de 1800 e o século seguinte. / Foto por Roberto Stuckert/PR

Três ou quatro marcos fundamentais e – o que é melhor – fundamentados precisam ser lidos e meditados sob pena de cultivarmos lugares-comuns e ficar sem entender as razões reais do evoluir histórico dessas duas importantes nações continentais e populosas. Quem não conhece (e compreende) o seu passado histórico encontra dificuldades em vislumbrar o porvir, preso a mentiras e amarrado às perplexidades.

Vejamos alguns pontos: 1) O Brasil foi um país de colonização precoce, porém pequena e descontinuada. Os EUA, ao contrário, foram um país de colonização tardia, porém maciça e continuada. Nos setecentos, temos já as 13 colônias consolidadas. A independência, para nós, foi um ato de vontade tardia de um príncipe português e ocorre em 1822. As colônias americanas foram à guerra contra a Coroa Britânica, e em 1776 tornaram-se independentes com o nome de Estados Unidos. 2) Os EUA são um país de industrialização precoce. Nós somos o país que mais se atrasou na industrialização (1890), mas fomos o que mais progrediu durante os 80 anos seguintes. 3) Os EUA são um país predominantemente protestante e antipapista, afeiçoado à iniciativa privada, à falta de suporte estatal. Lá inexistem direito administrativo e direito do trabalho. Trabalha-se por hora. Estados e municípios pedem falência. Precatório é palavrão. Nós fomos católicos, avessos à economia de mercado, país rural e aristocrático. 4) Os EUA aboliram a escravatura e o latifúndio no meio do século 19, após uma guerra cruenta contra o Sul ruralista. Nós mantivemos, sob dois reinados, o latifúndio e a monocultura (durante o século 19 inteiro, o que nos retardou o desenvolvimento econômico e social de maneira brutal). Fomos os últimos a libertar os escravos e os lançamos na rua da amargura. Os mamelucos (brancos com índias) e os mulatos jamais tiveram educação e posses. A Primeira República mudou a forma de governo, não o país.

Ditos esses pontos, toda aquela lenga-lenga de que os pioneiros vieram para ficar e os nossos colonizadores para pilhar torna-se uma rala redução da história à simploriedade. Improcede ainda a ganância da Coroa Portuguesa e a liberalidade da inglesa. Isso é absolutamente contraditório. Foi a exploração da metrópole inglesa que forçou as suas colônias a rebelarem-se precocemente, de modo anárquico. O ato do chá entornou da xícara e forçou a rebelião. Se não fosse a ajuda francesa a empreitada teria fracassado, até porque parte da população não queria a independência.

Recomendo aos interessados o livro História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI, Ed. Contexto, de Leandro Karnal e outros. Desfaz lugares-comuns que empanam uma visão realista sobre as nossas histórias, as quais, junto com a do México, são as três mais ricas e movimentadas do Novo Mundo. Vem a calhar ler o livro sobre o estado e a cidade de São Paulo, a oitava em população na virada do século 20, A capital da solidão, de Roberto Pompeu de Toledo. Explicar a ascensão e a queda de povos a partir de aspectos secundários é sandice. A ser assim, a Grécia e a Itália dos dias correntes negariam o Império de Alexandre e o mais longevo da história, o romano. Ademais, o estado de São Paulo, inexpressivo no século 19, jamais teria se tornado o “país” mais forte da América do Sul, depois do Brasil, no século 20. Tudo indicava o contrário. Marés da história!

Mas o que devíamos saber é que, por ano, o governo federal arrecada um trilhão e quinhentos bilhões de reais (em outubro, chegou a R$ 1,3 trilhão) sem falar em estados e municípios. E não temos quem guarde as fronteiras, nem sequer guarda-marinha, nem segurança, nem saúde ou educação. Em 12 anos de PT crescemos mediocremente. Para onde vai tanto dinheiro? No país basco, igual a Sergipe, Bilbao tem metrô (300 mil habitantes). Em 30 anos, a China saiu da miséria para ser potência. Acorda, Brasil!

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