Despreparo

O temperamento e bravatas do presidente transmitem ondas de insegurança jurídica e de vacilações dos investidores, justamente o contrário do que queremos

As manifestações do despreparo presidencial são tantas, quase diárias, que seria fastidioso enumerá-las. E, por isso, é malvisto pelos europeus, governantes e governados. Com isso, os investimentos não chegam no montante que desejamos e precisamos. O temperamento e bravatas do presidente transmitem ondas de insegurança jurídica e de vacilações dos investidores, justamente o contrário do que queremos. 

As embaixadas, os consulados, a imprensa estrangeira aqui instalada, os chamados correspondentes estrangeiros e os executivos das empresas forâneas com negócios no Brasil são veículos informativos eficazes para novos investimentos, que teimam em não vir para cá, preferindo o México, a Colômbia e o Chile, dado que a instabilidade política, as crises entre poderes, o ambiente econômico com o país empacado em 1% de crescimento anual e a figura impulsiva, desabusada, imprópria e contenciosa do Bolsonaro deixam nosso país à mingua. 

Nem os EUA têm aumentado os investimentos significativamente aqui, apesar de ter sido há 70 anos o nosso maior investidor. O primeiro lugar é da China, que nos compra muito e gostaria de investir muito mais. Mas o cadete das Agulhas Negras, a milhas de distância de um Geisel, de um Castelo Branco ou Golbery, militares instruídos, tem pavor dos “comunistas”, apesar do fato notório do desaparecimento mundial, afora Cuba e Coreia, do socialismo como modo de produção e organização política. A Rússia deixou de sê-lo, embora tenha um presidente que se deseja perpétuo (mas é um senhor presidente), e a China a perfilhar um regime que eles próprios chamam de “parque de muitas flores” (correntes diversas de opiniões dentro do partido comunista). Até o presente, a corrente do meio, a moderada, tem vencido todas as cruentas porfias que ocorrem num partido com 10 mil votantes (os que votam e decidem como será o comitê central governativo), com mais de 100 milhões de membros e com uma diversidade muito grande entre os governadores das províncias (são uma espécie de Estado-membro, com um grau médio de autonomia, o que tem causado seguidas crises entre alguns deles e o poder central). 

Incapaz de perceber as sutilezas da política local, quanto mais da política internacional, Bolsonaro os tem como “comunistas”, quando são cada vez mais capitalistas. Enquanto isso, ele, o liberal-capitalista, não tem sequer um projeto de privatização operacional (já se passaram quase um ano e três meses de governo).

Temer governou melhor sem apoio do Congresso. Este aí hostiliza os demais poderes da República e provoca passeatas contra eles, para depois dizer na maior cara de pau, na TV, que os movimentos foram “espontâneos” (quer dizer os movimentos ditos “espontâneos” não tiveram nenhuma “mãozinha” do presidente). 

Agora vê-se, já faz um tempo, deu de mentir a torto e a direita. Chega de “brincar” de presidente e começar a governar o Brasil. 

É o nosso Feola. O time do Brasil jogava e ele dormia. Esse não para de falar enquanto os ministros trabalham. Só mesmo o Bozo. Depois de desdenhar do coronavírus na cola de Trump, a quem idolatra, o nosso presidente cometeu a imprudência de apertar mãos sob risco de se contaminar ou ele a outros, caso tivesse o vírus em incubação. Íncubo ou não, deu um péssimo exemplo ao país, pois convocou à socapa seus fanáticos seguidores a desancar o Legislativo e o Judiciário. Todo autocrata irrita-se contra os demais poderes. Mao, Stalin, Fidel, Getúlio, Hitler, Mussolini, Jânio “et caterva” quiseram mandar com absolutismo e alguns conseguiram com os custos humanos horríveis que todos sabemos. 

Eis que de repente, sem necessidade, vem a entrevista das máscaras, tiradas na hora de os ministros falarem. As máscaras então eram para defender seus auxiliares contra os jornalistas presentes, sujeitados aos perdigotos de seus ministros e os do presidente falador. 

Quero trazer à colação as palavras de Eliane Cantanhêde de 3/3/2020: 

“A cada ataque do presidente Jair Bolsonaro, do seu entorno e da sua tropa da internet ao Congresso, a governadores, à mídia, a jornalistas (geralmente mulheres…), a presidentes estrangeiros, a ambientalistas, a ONGs, a pesquisadores cresce a percepção de que há uma escalada autoritária, um teste de limites.” 

Esse roteiro sugere um teste, um avança e recua, de olho nas reações das Forças Armadas e das redes sociais. E é aí que surge um fato novo depois que o Planalto aumentou o tom contra o Congresso: a maioria militar silenciosa, particularmente do Exército, começou a demonstrar desconforto e a dizer algo assim: “Aí, não!” Aliás, o presidente chamou a atenção na live de quinta-feira. Em bom e alto som, anunciou: “Não vou renunciar ao meu mandato!.” Nem o seu maior adversário aventa a hipótese de renúncia, ou de impeachment, assim como boa parte dos seus apoiadores militares não quer nem ouvir falar em golpe. A saída é outra, é o presidente se comportar como… presidente. E focar no essencial, a economia, a estabilidade, o país. Salve, Cantanhêde!

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