Bolsonaro e a pólvora

Os militares não querem fazer parte da política e nem querem que a política entre nos quartéis

Comandante Pujol diz que Exército não é ‘instituição de governo’ nem tem partido. Neste mês, Bolsonaro defendeu uso de ‘pólvora’ para proteger a Amazônia. O general discursou durante um seminário de defesa nacional, promovido pelas Forças Armadas, durante transmissão ao vivo pela internet. Na ocasião, ele afirmou que os militares não querem fazer parte da política e nem querem que a política entre nos quartéis. Bolsonaro fez o comentário ao aludir ao fato de que Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos, defendeu durante a campanha eleitoral sanções econômicas ao Brasil, caso o país não detenha a destruição da floresta.

“Não somos instituição de governo, não temos partido. Nosso partido é o Brasil. Independentemente de mudanças ou permanências em determinado governo por um período longo, as Forças Armadas cuidam do país, da nação. Elas são instituições de Estado, permanentes. Não mudamos a cada quatro anos a nossa maneira de pensar e como cumprir nossas missões”, afirmou Pujol.

De acordo com o blog do jornalista Gerson Camarotti, generais da ativa e da reserva entendem que Pujol está manifestando o incômodo da instituição com o que consideram tentativas de Bolsonaro de politizar o Exército. O pretenso uso de “pólvora” contra os EUA gerou uma série de críticas de parlamentares contra Bolsonaro e piadas nas redes sociais, algumas tendo o Exército como alvo.

Também presente ao seminário, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, foi questionado após o evento se a declaração de Bolsonaro gerou constrangimento nas Forças Armadas. Para o ministro, o presidente fez uso de uma “força de expressão”.

Mourão reforça fala de Pujol: ‘Não admitimos política nos quartéis’. Para o vice-presidente, permitir a politização dos quartéis acaba com a disciplina e a hierarquia. “Pujol verbalizou o nosso modo de pensar. Não admitimos política nos quartéis, pois isso acaba com os pilares básicos da instituição, a disciplina e a hierarquia”. Pujol deu a declaração durante uma transmissão ao vivo promovida pelo Instituto para a Reforma das Relações entre Estado e Empresa.

Generais da ativa e da reserva ouvidos pelo blog viram a manifestação pública do comandante do Exército como um alerta de insatisfação das Forças Armadas A fala foi vista, também, como um limite para os próprios movimentos do Palácio do Planalto. Questionado pelo blog se o comandante Pujol colocou um limite para a tentativa de politização dos quartéis, o general Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, foi direto: “O Pujol foi preciso. Esse é o Exército Brasileiro. Política não pode contaminar a instituição. Ele falou o que é seguido no Exército por muito tempo. Seguiu a linha-mestra do Exército. ”

De forma reservada, outro general resumiu da seguinte forma a manifestação de Pujol: “Era mesmo preciso um Rubicão” (referência ao rio do Império Romano que delimitava até onde um general poderia avançar com suas tropas, para não ameaçar a capital). Nos quadros da ativa, a fala do comandante foi vista da mesma forma. “Algo diferente disso é que seria de espantar”, disse um general, lembrando que no ano passado o Exército publicou portaria que proíbe manifestação política nas redes sociais.

Na bravata em tom de ameaça aos Estados Unidos, Bolsonaro disse que quando acaba a “saliva” da diplomacia, tem a “pólvora”. O Brasil se transformou em motivo de piada internacional pelo episódio.

Em abril, Bolsonaro chegou a participar de ato em frente ao quartel-general do Exército em que manifestantes pediam a intervenção militar, gerando constrangimento para as Forças Armadas.

Em recente artigo publicado no jornal Correio Braziliense, o ex-porta-voz da Presidência, general Otávio do Rêgo Barros, fez críticas que foram interpretadas nas Forças Armadas como um recado indireto ao próprio presidente Bolsonaro.

Ele escreveu que o poder “inebria, corrompe e destrói”.

Um general da reserva alertou que na gestão Bolsonaro os militares estão sofrendo uma espécie de humilhação pública. O primeiro episódio envolveu pessoalmente o presidente, que desautorizou publicamente e depois enquadrou o seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, um general três estrelas da ativa. (Pazuello teve que se retratar pelo acordo para comprar vacinas contra o novo coronavírus produzidos pelo Instituto Butantã com tecnologia chinesa).

O próprio tratamento público de Bolsonaro ao vice-presidente Hamilton Mourão, um general quatro estrelas, tem causado contrariedade entre os militares, por ser “indemissível”, como ressaltou Bolsonaro. Vale dizer que se não fosse iria para a rua, sem mais nem menos.

A coleira cada vez aperta mais o pescoço do presidente mais destrambelhado que o país já teve em todos os tempos!

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