A Ucrânia sofre!

Sacha Calmon
Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ

Muitos dos que se posicionam nominalmente contra a Rússia protegem seus interesses.

Os países não têm amigos, mas interesses. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em apelo desesperado, instou por ajuda militar irrestrita da Otan, de modo que, segundo ele, seu país possa enfrentar o invasor russo em condições mais igualitárias. Não especificou, no entanto, o conteúdo defensivo que julga adequado para prosseguir com êxito a resistência e diminuir, de acordo com sua visão, o sofrimento do povo. Se se refere a ajuda sob a forma de equipamento de combate, não precisaria de súplica tão dramática, pois tudo indica, conforme a mídia internacional, que o fluxo de entrega de material bélico pela Otan ao seu país vem aumentando a taxas preocupantes.

Ao cabo, a Ucrânia, ou seu presidente, delira na pretensão de ganhar essa guerra? Depois que a Otan se negou a fazer parte dela? Resumindo-se a demonizar Putin nos meios de comunicação e a sustentar as sanções econômicas contra o povo russo!

Seja pela força, seja por um processo internacionalmente controlado, o leste ucraniano, falante de russo, as duas repúblicas separatistas, em guerra desde 2014, e a Crimeia querem se unir à Rússia ou ao menos separar-se da Ucrânia. Essa é uma realidade, segundo Kissenger.

Uma negociação realista é o melhor caminho. Há casos a considerar, como a Alemanha, que depende em 40% do gás russo. O próprio Brasil será prejudicado como comprador exponencial de adubos e fertilizantes russos, especialmente os nitrogenados.

Edward Luce, do Financial Times, nos traz uma análise brilhante. Ele destaca: “Não pela primeira vez, o Ocidente está confundindo a sua união com um consenso global. Uma das medidas enganosas vem da ONU. Pela mais recente contagem da organização, no começo do mês, 141 dos 193 países-membros condenaram a clara violação do direito internacional cometida pelo presidente russo, Vladimir Putin. Mas os 35 que se abstiveram respondem por quase metade da população mundial. Entre eles estão China, Índia, Vietnã, Iraque e África do Sul. Acrescentando-se os que votaram ao lado da Rússia, é mais de metade”.

Muitos dos que se posicionam nominalmente contra a Rússia protegem seus interesses. A Arábia Saudita estuda pedido da China de pagar em yuans por seu petróleo. O pedido, se aprovado, ajudará a reduzir o poder do dólar. Tanto a Arábia Saudita quanto os Emirados Árabes Unidos se recusaram a atender ao telefonema de Joe Biden neste mês, quando ele queria que eles aumentassem a produção de petróleo – uma rara afronta a um presidente dos EUA.

Na semana passada, os Emirados receberam uma visita oficial de Bashar al-Assad, ditador da Síria e aliado de Putin, que os EUA consideram um pária. Um dos motivos dos Emirados para reabilitarem Assad é a pressão de Biden para revitalizar o acordo nuclear com o Irã, regionalmente temido, que, assim, liberaria mais petróleo no mercado. Mesmo Israel, possivelmente o amigo mais próximo dos EUA, evita prejulgamentos. Seu premiê, Naftali Bennett, que participa como mediador entre Rússia e Ucrânia, tem se revelado visivelmente imparcial. O Brasil, igualmente, se diz incomodado, segundo o chanceler Carlos França.

Bitencourt e Walendorff dizem: “Crítico ao modo como os países do Ocidente reagiram à invasão da Ucrânia, o ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França, considera que as sanções econômicas impostas à Rússia vão gerar consequências negativas principalmente para as nações em desenvolvimento”.

Para ele, a ofensiva contra o país “praticamente inviabiliza” os pagamentos em operação de exportação e importação com os russos e representa uma “perigosa ameaça” ao sistema de comércio internacional. “O grande risco das ações do modo como elas têm sido implementadas é que suas consequências recairão no médio prazo mais sobre o mundo em desenvolvimento do que sobre a própria Rússia, enquanto resguardam os interesses de países desenvolvidos de seus piores efeitos”, afirmou França, que classificou as medidas adotadas de “unilaterais e seletivas”.

O chefe do Itamaraty fez um discurso e respondeu a questionamentos de parlamentares durante sessão do plenário do Senado dedicada a discutir os desdobramentos do atual conflito no Leste Europeu. Para o chanceler, a reação do mundo ocidental à invasão da Rússia apenas preserva “interesses urgentes de alguns países”, relacionados ao fornecimento de petróleo e gás na Europa. As mesmas medidas atingem o suprimento de produtos essenciais à sobrevivência de “grande parcela” da população mundial. “Os fertilizantes que nós no Brasil precisamos são igualmente essenciais para evitar a fome e garantir a sobrevivência econômica e a estabilidade política das nações em desenvolvimento – ou seja, de países que respondem por três quartos da população global”, afirmou França. De acordo com o ministro, o Brasil tem votado e se pronunciado de acordo com a “tradição diplomática” do país.

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