Política externa

É preciso não misturar a história das religiões com as questões de geopolítica e as projeções econômicas e comerciais do século 21

Senhor presidente, não votei para me alinhar com os Estados Unidos (EUA) e Israel, nem isso foi mencionado na campanha. Quero um país que, além “de comerciar sem viés ideológico”, seja soberano e atue na cena internacional sem viés religioso. O Estado é laico. Não devemos entrar opinando ou apoiando partes em situações de guerra ou beligerância. Vi retrato em sala residencial ou no seu lugar de trabalhar, de um candelabro de sete pontas, símbolo religioso e político de Israel.

Se fosse uma lua crescente muçulmana, o que o país diria? Afora o viés pró-Israel, até então evitado com êxito exemplar pelo Itamaraty, os do mundo muçulmano são parceiros comerciais de grande peso em nosso comércio exterior. E a China é o nosso grande parceiro comercial, a ocupar o primeiro lugar, seguindo-se os Estados Unidos.

Excessiva e vazia a frase: “Vender o Brasil pode, mas não comprá-lo”. O que significa essa hostilidade, capitão? Os chineses podem, sim, comprar terras no Brasil. Temos nacionais e pessoas jurídicas de vários países que possuem imóveis urbanos e rurais no país. Qualquer preconceito nesse particular revela hostilidade, ou mesmo medo, de passagem, infundada, dado que temos mecanismos jurídicos e econômicos de controle, sendo bem-vindo o capital externo, pouco importando a origem. Os EUA possuem infinidade de capital exterior na economia, inclusive chinês.

A linha tradicional do Itamaraty tem sido de não intervenção em assuntos internos de outros países e, por isso mesmo, é de diplomacia comercial sem viés ideológico, privilegiando o lado prático da política exterior que precisamos. Interessa-nos aprofundar, bilateralmente, as relações com o grupo dos Brics, especialmente a China e a Rússia, sem descurar os EUA. Em termos geopolíticos, somos e devemos valorizar a nossa inserção no Grupo dos 20, além de acendrar a percepção simpática que nos devotam os EUA e a União Europeia (UE) pela afinidade religiosa, cultural e linguística, sem que isso impeça o multilateralismo de nossa política externa.

Os recursos financeiros dos países árabes ricos, especialmente da Arábia Saudita e dos Emirados, são intensamente disputados pelos fundos financeiros internacionais da Europa e Ásia. Não haverá de ser por motivos religiosos, ou por causa de conflitos que não nos interessam como nação (diferentemente dos EUA, ou França, ou o Reino Unido), que haveremos de nos afastar dos negócios com o mundo muçulmano.

Evidentemente, faz parte de nosso destino histórico a liderança da América do Sul (soft power) a que devemos dar especial atenção. Aqui sim, a dimensão ideológica nos diz respeito. Qualquer emergência improvável de ideias socialistas deve ser combatida. É claro que se espera do Brasil atitude mais enérgica em relação à Venezuela, em via de extinção. A reconstrução democrática do país vizinho deve ser prioridade de nossa política exterior.

Por último, mas não menos importante, é a efetiva ocupação militar e econômica da Amazônia e do Atlântico Sul com nossa projeção na África, em termos de geopolítica. Temos na África e no Oriente Médio, no mundo muçulmano em geral, uma percepção que não nos confunde com o odiado mundo ocidental. Essa é uma vantagem excepcional.

E é justamente por isso que qualquer deferência especial a Israel — que, aliás, merece a mantença de laços econômicos e culturais — não deve ser romântica ou religiosamente proclamada, sem mais nem menos. É preciso não misturar a história das religiões com as questões de geopolítica e as projeções econômicas e comerciais do século 21, a nos exigir pragmatismo. Deus acima de tudo, cada qual com o seu, e o Brasil acima de todos é o nosso lema. Estamos todos de acordo, exceto o moribundo PT.

Meu caro capitão, sua declaração gratuita significou apoio a um único Estado na região. Deixe isso com o Itamaraty. Demétrio Magnoli disse bem: “O caso da transferência de embaixadas é emblemático. Trump atende à voz da ideologia, não aos interesses dos EUA ao transferir a embaixada para Jerusalém. Ao menos, porém, seu gesto tem impacto real, contribuindo com o projeto de Netanyahu de esterilizar a via da paz em dois Estados. Lá, o gesto de Bolsonaro é proclamação puramente simbólica, de um ator irrelevante no contexto do Oriente Médio. Mas gera danos diplomáticos reais ao Brasil frente à comunidade internacional, além de prejuízos para nossas relações econômicas com os países árabes”.

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