O caso paraguaio

Sabia-se que o país estava à matroca. A emboscada dos sem-terra de lá precipitou a queda do desgoverno.

A queda do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, após o devido processo constitucional (impeachment) foi perfeitamente democrática, tanto que ele acatou a decisão. Com a reação da Unasul, voltou à cena e até formou um governo paralelo. Estamos criando outro Zelaya. Aplicar sanções apenas prejudicará aquele povo sofrido. Rapidez não é desdouro. O governador de Illinois (Estados Unidos) também foi impedido e preso rapidamente, por ter leiloado entre os possíveis pretendentes o cargo de senador de Barack Obama, vago com a sua eleição. As cadeiras vagas de senador nos EUA são preenchidas por nomeação dos governadores dos estados.

No Paraguai, sabia-se que o país estava à matroca. A emboscada dos sem-terra de lá precipitou a queda do desgoverno. Fato notório dispensa prova. O país vizinho merece elogios por não admitir a Venezuela no Mercosul (o único Parlamento contrário foi o paraguaio). O bispo Lugo estava desmoralizado por ser pai de filhos num país católico. Era inepto, contava com o apoio certo de apenas 4% do Congresso bicameral, não tinha como governar. Exercia descaradamente o nepotismo. Parentes e amigos ocupavam os cargos de confiança disponíveis no aparato estatal, para garanti-lo. Permitiu, no plano político, que brasileiros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fomentassem no Paraguai as técnicas subversivas das invasões e depredações de propriedades, aguçando o movimento dos sem-terra guaranis contra os “terratenientes”, especialmente nas regiões prósperas do agronegócio, a ameaçar não apenas paraguaios mas os “brasiguaios” acusados de “usurpadores colonialistas”. Ora, a gauchada nunca foi grileira, comprou as terras. São exímios agricultores e criadores. Um país com um governo abúlico, inerte e ineficiente, governado por um morto-vivo político, não está obrigado a esperar o termo final do seu mandato, se tem instrumentos constitucionais para removê-lo. Ato político dispensa processo longo. O governo Lugo rastejava havia meses. O remédio constitucional se fez pronto e o vice-presidente assumiu garantindo a liberdade de ir e vir e de imprensa, o respeito à propriedade privada, a demissão dos apaniguados, as eleições periódicas e o combate aos movimentos subversivos armados que atentavam contra o Estado e a propriedade privada no meio rural e até na capital (Lugo, por debaixo do pano, os incentivava).

Sintomático como os quatro patéticos caudilhos – a reina Cristina, o xamã Morales, o despótico Corrêa e o coronel Chávez), se apressaram em defender o colega impedido. No fundo o que desejam é uma salvaguarda. Usam e abusam de eleições popularescas, cortejando as massas, enquanto esmagam as liberdades democráticas, o direito de propriedade, a imprensa livre e as oposições. Mas temem – eis aí uma verdade – as Forças Armadas e eventuais maiorias parlamentares. As primeiras coisas que fizeram foi manietar o Poder Judiciário e cooptar os Legislativos. Por temerem a democracia, se apegam ao formalismo das eleições, ainda que fraudadas ou manipuladas ou feitas com a imprensa e as oposições fragilizadas. (E procuram controlar a qualquer custo as Forças Armadas.) O Brasil não deve andar na companhia dessa gentalha política. Ao cabo, as eleições presidenciais não tardam no Paraguai. Houve apenas uma intervenção sanitária na Presidência daquela República, que é sócia, em igualdade de condições, da Itaipu Binacional, fornecendo 7% da energia brasileira, enquanto Yaciretá responde por 12% da eletricidade argentina.

Quanto aos nossos patrícios, a omissão do Brasil é intolerável. Vamos garantir aquele que os oprimia? Lugo era tido pelos “brasiguaios” como o que levou instabilidade ao campo. Nos últimos meses, a tensão com grupos camponeses locais – conhecidos como “carpeiros” – se acirrou, com uma onda de invasões às suas terras. Com a notícia da queda do ex-presidente, “o povo está aliviado, a tensão no campo era grande. Não se sabia o que iria acontecer”, afirmou Jair Graeff, que planta 1,5 mil hectares de soja em Mbaracayu, a 65 quilômetros da fronteira com o Brasil. No Paraguai, desde 1987, é um dos muitos brasileiros – responsáveis por 70% da produção de soja do país – que tiveram o título de suas propriedades contestado nos últimos anos. Somente em Mbaracayu, 30 famílias passam pelo mesmo problema. “Acho que uma suspensão do Paraguai do Mercosul seria um gol contra do Brasil. Há mais de 300 mil brasileiros produzindo no país vizinho, e eles seriam os maiores prejudicados”, disse ele. “Grande parte da nossa produção é escoada pelo Brasil e pela Argentina. Os insumos, como fertilizantes e outras matérias-primas, também vêm de lá.” O Brasil precisa impor-se, em vez de seguir Chávez e Cristina. Dize-me com quem andas e te direi quem és! Por acaso demos ao Paraguai o direito de explicar-se? Aplicamos as sanções sem direito de defesa. Haja hipocrisia!

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