O Bolsonarismo

Os 100 dias iniciais aí estão e ainda não temos uma ideia de como o governo é (nem da efetiva liderança do chefe eleito da nação)

 

É como se de repente a arte de governar sofresse um forte supetão com a chegada de novo inquilino ao Planalto. O twitter entrou em cena, e os filhos do presidente, sem cargos no Executivo, dão declarações sobre as questões do país com uma naturalidade espantosa. É como se a família do cacique tomasse conta da aldeia brasilíndia. É sem dúvida muito peculiar essa situação, sob o ponto de vista do presidente da República. Resta saber se é eficaz, conquanto politicamente seja bizarra!

O Bolsonarismo

Há muito personalismo nesse governo — não no sentido que Emanuel Mounier dava ao termo personalismo — ou seja, atenção e respeito à pessoa, como sujeito de direitos e deveres, em plano de igualdade entre eles, base de todas as construções políticas e sociológicas a respeito das sociedades. Aqui o personalismo a que nos referimos se opõe às instituições. Querem ver um exemplo? Depois de várias altercações, o sr. Bolsonaro volta-se ao presidente da mesa diretora da Câmara dos Deputados, o Deputado Rodrigo Maia, e verbaliza paz, amor e companheirismo, à moda castrense, ao seu recentíssimo desafeto. Com isso dá por encerrado o “climão” criado com o Legislativo — vamos dizer assim — do nada absoluto. É espantoso! 

Passamos dos idos de março. Os 100 dias iniciais do governo aí estão e ainda não temos uma ideia de como o governo é (nem da efetiva liderança do chefe eleito da nação). Havia um ministro colombiano no governo cuja indicação atribui-se a um tal de Olavo de Carvalho, o Sócrates redivivo, só que da mediocridade filosófica, a exercer sobre o governo uma influência rasputiniana. Mas esse ministro, segundo o próprio presidente, caminhou para a degola, de resto bem-vinda, não por ser ele colombiano, mas um perfeito idiota (fontes ligadas à Presidência da República tinham-no como incapaz de “desaparelhar” o ministério!) Bem, não deixa de ser um critério, embora não seja o melhor. É sabido que o PT “aparelhou” as engrenagens do Estado e é preciso mesmo retirá-los do poder. 

Outra coisa muito diferente é saber operar com aprumo e polidez as relações entre o Poder Executivo e os demais poderes da República (o Legislativo e o Judiciário, para sermos mais didáticos). Cabe a ressalva. Tem gente que confunde o Judiciário com o Supremo Tribunal Federal, que aliás nem é um órgão do Judiciário, em rigor. Seus membros são indicados pelos presidentes da República, como nos EUA, e nem precisam ser juízes de carreira. O recrutamento é amplo, basta ser formado em direito. 

A imprensa e o mercado estão atônitos. O Valor Econômico, de 28/3, diz bem: “O mercado financeiro registrou o aumento da temperatura política em Brasília. A bolsa de São Paulo teve queda de 3,57% no dia — em apenas uma semana, o Ibovespa perdeu 8 mil pontos para 91.903 e o dólar superou R$ 4, a conferir”. “Ampliou-se o conflito entre Executivo e Legislativo, que já estava estampado na votação de terça-feira, quando uma pauta-bomba, com impacto fiscal, foi aprovada a toque de caixa com apoio do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).” Em entrevista, o presidente Jair Bolsonaro disse não ter problemas com Maia: “Ele está abalado com questões pessoais dele”, insinuando os laços de parentesco de Maia com o ex-ministro Moreira Franco, que foi preso e depois solto. É sogro de Rodrigo Maia. 

Maia reagiu: “Abalados estão os brasileiros, que estão desde 1° de janeiro esperando que o governo comece a funcionar”.  E acrescentou: “O presidente está brincando de presidir o Brasil”. Em tréplica, Bolsonaro afirmou não existir brincadeira: “Isso não é palavra de uma pessoa que conduz uma Casa (legislativa). Trégua pode ter, mas a animosidade persistirá!” 

A ida do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao Congresso também acabou tendo efeito contrário à distensão esperada, depois que ele deixou de comparecer à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. Em audiência de cinco horas, na Comissão, voltou a dizer que pode até deixar o cargo se a reforma da Previdência não for aprovada. “Se o presidente ou a Câmara ou ninguém quiser aquilo, eu vou dificultar o trabalho dos senhores? Tenho uma vida fora daqui!” Mas acrescentou que não deixará o governo em sua primeira derrota. Guedes reagiu às pressões por recursos e, reclamando das demandas que provocam “vazamentos” nas contas públicas, negou ser um superministro: “Estou mais para Brumadinho do que para Itaipu”. 

Depois da tempestade virá a bonança. Queremos mar tranquilo e praia limpa. A opção é por Itaipu, mas tudo indica que o presidente da República gosta de ondas grandes para surfar. Numa dessas, bem pode se machucar e afundar nossas exportações de carne bovina e de frango para o mundo árabe. Em viagem ao Oriente Médio, em vez de louvar Jesus, em Belém, na Palestina, na igreja da anunciação, foi enfiar bilhetinhos na muralha restante do segundo templo de Javé em Jerusalém, como se fora um deles. Foi pedir perdão.

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