China para leigos

A China está determinada a mudar o seu modelo de crescimento, até então baseado em investimentos internos e demanda externa

O Brasil, país desinformado, acha que a China é um país de trabalho escravo. É de fazer dó. Não há nada mais espetacular em economia do que a ascensão da China a partir de 1982, a ponto de tornar-se a segunda economia do mundo em 2015. Nem a Alemanha e o Japão destruídos em 1945 se equiparam ao “boom” chinês (PIB de US$ 11.900 trilhões).

Artigo no Valor, em 12/1 – bem escrito – noticia que a China viu o yuan desvalorizar-se, fomentando grandes turbulências nos mercados internacionais de ações. O circuit breaker foi acionado duas vezes num mesmo dia em Xangai e os leigos ficaram sem entender “esse fim do mundo”. Os chinacéticos, à sua vez, disseram: “Eu sabia que a China ia desabar”. Ledo engano. Para entender o assunto é necessário começar pelo básico.

Xangai - China

A China busca agora investimentos externos na Ásia, África, América Latina, Índia, EUA e Europa; e consumo doméstico / Foto: Dennis Jarvis

A China está determinada a mudar o seu modelo de crescimento, até então baseado em investimentos internos (e tudo já foi feito) e demanda externa mundial. Busca agora investimentos externos na Ásia, África, América Latina, Índia, EUA e Europa e consumo doméstico (um enorme mercado de 1,320 bilhão de seres viventes e rebanhos significativos).

Essa mudança em um país tão grande colide com o mundo atual. Em ambiente de crescimento global lento, as empresas chinesas e estrangeiras lá fixadas não têm como vender para o exterior volumes maiores de bens e serviços, a partir da atual capacidade instalada, dispensando investimentos em expansão produtiva, o que limita, no mercado interno, o aumento dos empregos e da renda (salários). Como consequência, o consumo interno cresce com parcimônia. O chinês é austero (guarda dinheiro para a velhice), conforme a multimilenar cultura confucionista. Para os emergentes sobram vendas menores de comodities minerais para a China: aço e minério, por exemplo, e matérias-primas.

Portanto, a demanda enfraquecida do restante do mundo força um crescimento menor da China (6,9% em 2015). É aí que está o gargalo. Em razão do excesso da capacidade industrial instalada, os preços caem, gerando deflação na China e pelo mundo afora, pois os concorrentes não podem aumentar os preços sob pena de perder seus mercados para os chineses, cujos produtos são os mais competitivos do planeta.

Segundo o estudo mencionado: “As desvalorizações da moeda chinesa são consistentes com uma tendência, tanto entre as economias emergentes como nas avançadas. Logo após a crise financeira mundial, os EUA basearam-se em política monetária expansionista, caracterizada por taxas de juro próximas de zero e compras de ativos em larga escala, que desvalorizaram o dólar, aumentando, assim, as exportações. Mais recentemente, o banco central europeu adotou abordagem semelhante, induzindo uma queda do euro, num esforço para estimular a atividade doméstica”.

O Japão fez o maior derrame de moeda e crédito da história e continua em recesso, não cresce. Mas a desvalorização do yuan altera o comércio global. Prossigamos: “A China vem mostrando o maior interesse em internacionalizar gradualmente seu sistema financeiro. Notavelmente, o país conseguiu convencer o Fundo Monetário Internacional a incluir o yuan na cesta de moedas que determinam, o valor dos direitos especiais de saque, a unidade que o FMI utiliza em suas relações com seus 188 países-membros. Esse passo – o que coloca o yuan a par com as principais moedas mundiais (o dólar americano, a libra esterlina e o iene japonês) – amplia a aceitação da moeda chinesa pelos setores público e privado do sistema monetário internacional. Ao mesmo tempo, criou-se a expectativa – embora não a obrigação – de que a China se absterá de agravar a instabilidade financeira mundial”, ou seja, adotar o câmbio flutuante.

Na contramão, os EUA, com pequeno aumento da taxa de juros perceberam, com desespero, a valorização do dólar e a correlata perda de competitividade de seus produtos. O resultado é que não haverá inflação na América, nem na União Europeia nem no Japão, sob pena de a China avançar suas vendas em todos eles. Hoje, uma gripe na China põe a economia mundial com pneumonia.

O dilema chinês é globalizante. Talvez o seu governo pudesse criar algum tipo de colchão de proteção, com aumento mínimo de tributação, para a população envelhecida que vai necessitar de previdência à medida que a longevidade aumenta. Isso faria com que os chineses jovens e de meia-idade abrissem a mão e saíssem às compras, aumentando assim a capacidade industrial, o emprego e a renda, num círculo altamente virtuoso.

Deng Xiaoping foi o idealizador da China moderna, após a morte de Mao e da derrocada da Revolução Cultural. Que surja agora um líder capaz de superar a ética de Confúcio, que prega aos jovens muito trabalho e constante poupança, para cuidar de si e dos pais na velhice. O lema é rodar o moinho do consumismo. O comunismo “já era” (só persiste em Cuba, na Coreia do Norte e na cabeça tonta de Lula e do foro de São Paulo).

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