O mito do fim dos tempos

Daniel não prediz nem de longe Roma, a destruição do templo, nem tampouco Jesus.  

Na Bíblia hebraica, o último livro a ser composto foi o de Daniel, que parece um produto da perseguição de Antíoco Epifânio. À primeira vista, este livro trata dos feitos e da experiência de um judeu chamado Daniel – personificação lendária da sabedoria e da retidão – que viveu na corte babilônica durante e após o exílio. “Os seis capítulos iniciais trazem relatos sobre Daniel. Se originaram na diáspora babilônica, embora possam muito bem ter sido redigidos durante a crise de Antíoco. Os seis últimos capítulos foram compostos de modo a dar a entender que haviam sido escritos pelo próprio Daniel: em quatro apocalipses interligados ele descreve uma série de visões em que lhe foram revelados os acontecimentos futuros: na verdade, esses capítulos foram escritos entre 169 e 165 a.C., provavelmente por mais de um autor.” (Miles)

O mito do fim dos tempos - artigo de Sacha CalmonDaniel profetiza: “Por fim, o próprio Deus iria intervir: no tempo desses reis o Deus do céu suscitará um reino que jamais será destruído, um reino que jamais passará a outro povo. Esmagará e aniquilará todos os outros reinos, enquanto ele mesmo subsistirá para sempre. Foi o que pude ver na pedra que se destacou da montanha, sem que mão alguma a tivesse tocado, e reduziu a pó o ferro, o bronze, a argila, a prata e o ouro”. A pedra, na verdade, representa um reino que Deus irá estabelecer ‘no fim dos dias’. Esse reino será universal e eterno. (Além do mais, será estabelecido neste mundo terrestre – senão, por que a garantia de que nunca “passará para outro povo”?) É um livro judeu e para judeus desesperados.

(…)

O tribunal toma assento e – como em um tribunal de Justiça contemporâneo – os livros são abertos. “A uma ordem do juiz divino, o quarto animal é destruído e sua carcaça lançada às chamas. Então, ‘um como Filho de Homem’ aparece, ‘vindo sobre as nuvens do céu’. Ele é apresentado ao Ancião, dos dias que lhe transmite a soberania que nunca terá fim, um tal poder régio que todos os povos e nações do mundo se submeterão a ele” (depois da destruição dos reinos de Israel e Judá, os judeus a viver em terras alheias e soberanos de outros povos querem o fim do mundo para salvar sua fé e Javé, o único Deus).

Embora, geralmente, se considere que tudo isto vá ocorrer no céu, há indícios de que seu autor imaginou a cena acontecendo na Terra. Animais monstruosos saem do mar, o símbolo do caos, hostil a Deus e sempre ameaçando o mundo ordenado. A terra para onde vão é a mesma terra pisoteada pelo quarto monstro – com certeza, a Palestina. E, quando os tronos surgem e o Antigo de Anos, servido por miríades de anjos, toma seu lugar (sem dúvida o cenário também é a Palestina). Isso nos lembra outras teofanias anunciadas na Bíblia hebraica – por exemplo, no Salmo 96: ‘As árvores da terra gritem de alegria, diante de Yahweh, pois ele vem para julgar a terra’; em Zacarias: ‘E Yahweh, meu Deus, virá, todos os santos com ele, em um vale aberto por milagre junto a Jerusalém’; e em Joel: ‘Ali eu me sentarei para julgar todas as nações dos arredores’… O tema reduz-se ao Oriente Médio (“as nações dos arredores”).

Daniel não prediz nem de longe Roma, a destruição do templo, nem tampouco Jesus. É ligado ao messianismo judaico até a “raiz do cabelo”. Só por falar em Filho do Homem, os primeiros escritores da cristandade admitem que ele “profetizou” Jesus? (O anjo Gabriel disse que ele era filho do Altíssimo.). A expressão filho do homem era usada com frequência para anjos, arcanjos e tronos, que tomavam forma humana para realizar tarefas na Terra.

Os redatores do Livro de Daniel podiam – eles eram já existentes – prever o fim dos quatro impérios nascidos de Alexandre, o Grande, não, porém, a Águia Romana, nascida há 600 anos e que iria durar até a época das grandes descobertas marítimas protagonizadas pela Espanha e Portugal, com a queda de Constantinopla, nem tampouco a diáspora final do seu povo, nem a cruz na qual Cristo morreu. Uma cruz romana. O catastrofismo apocalíptico projetou-se futuro adentro em todo o mundo ocidental cristão. Na Idade Média, o mundo se acabou 800 vezes, pelo menos. Sempre havia uma data marcada (e frustrada). Há uma seita protestante que se denomina “Cristãos dos Últimos Dias”.

O próprio Jesus chegou a dizer aos seus discípulos que “esta geração não passaria” – geração que lhe era coetânea – “sem que se cumprissem as escrituras”. Paulo, crente na próxima, muito próxima, vinda de Cristo, esperava o Messias, e com ele o juízo final!

O filho do homem, no do Livro de Daniel, desde que o termo seja contextualizado, significa “o emissário divino de Javé” e que sendo o Messias toma a forma de um juiz, um homem, e surge do céu para julgar todas as nações (mas Israel só ressurge no fim da Segunda Guerra Mundial, por obra do brasileiro Osvaldo Aranha na ONU, uma grande ironia religiosa, pouco notada).

Parece que o mundo, a escritura não se cumpriu, é sem fim, não acaba nunca. Os apocalipses estão sempre ocorrendo, como na Segunda Guerra Mundial.

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