Morales e seu avião

Tenho para mim que Snowden tem toda razão. Ele desnudou a desfaçatez norte-americana

Não morro de amores pela Bolívia de Evo Morales. Lembro-me do aparato militar, signo do poder, com o qual se apossou da refinaria da Petrobras, sem que Lula esboçasse um gesto sequer de desagrado, proclamando assim ao mundo a sua “soberania” sobre as terras e ares do seu pedaço andino. Constatou agora o poder arbitrário de outras “soberanias”. Pois bem, o presidente do Estado Plurinacional da Bolívia, seja lá o que signifique isso, voltando de Moscou, onde participou de um fórum sobre energias, sofreu o vexame de ficar 16 horas parado em Viena, Áustria, com o seu avião presidencial – um pedaço da Bolívia, segundo o direito internacional público –, antes de partir em direção a La Paz. Dizem que o avião foi revistado com a sua humilhada autorização, para ver se o herói norte-americano Snowden estava ou não a bordo. Certamente cedeu diante da dureza austríaca e da vontade de voar para a América do Sul, onde o Brasil, a Argentina, o Uruguai, a Bolívia, o Equador e a Venezuela construíram a bobagem diplomática chamada Unasul, filhote do Fórum de São Paulo, formado por alguns velhos comunistas, ignorantes do processo histórico, intitulados “socialistas do século 21”; Lula à frente, com Dilma a reboque.

Edward Snowden

Foto: Flickr Abode of Chaos

Em primeiro lugar, devo dizer que França, Itália, Portugal e Espanha, que fecharam seus respectivos espaços aéreos ao sobrevoo do avião boliviano, são “lambe-botas” do império norte-americano. Foram informados que Snowden estava a bordo a fugir dos ditames de Obama. A Áustria reteve o avião. O espaço aéreo alemão continuou aberto. Em segundo lugar, fica-se sabendo que os Estados Unidos, com 850 mil agentes de 38 agências de espionagem eletrônica, a bisbilhotar, classificar e analisar milhões de pessoas (a revelar um país em pânico) dentro e fora de seu território, são um rematado fracasso. Não impediram sequer o atentado em Boston, entre outros, mas conseguiram desfigurar a 5ª Emenda Constitucional, que protege, em face do Estado e do governo, o direito das pessoas à intimidade. Agora deram mais um fora, mais um alarme falso. Snowden não estava no avião. Como sempre, o serviço de inteligência norte-americano não merece fé. Em terceiro lugar, mesmo que estivesse, nem os EUA nem a Áustria, nem ninguém, poderia tirá-lo à força do avião, muito menos invadir a aeronave, que segundo os tratados internacionais é inviolável, a menos que a Europa, dita civilizada, o que não é, por protagonizar o colonialismo e duas guerras em pleno século 20, resolvesse voltar ao século 19, eurocêntrico e arrogante.

Rússia, China, Irã são países que não se curvam aos ditames dos EUA. A China é a opositora econômica e política. A Rússia, a opositora militar, política e nuclear. O Irã, agora que o execrável Ahmadinejad foi-se do cargo de primeiro-ministro, é a oposição cultural, a afirmar o direito à diversidade e ao uso da energia nuclear para fins pacíficos. Os EUA decidem quem pode ter acesso a essa energia. Israel pode, o Irã não. A Índia deve, o Irã jamais. A China não pediu licença para obtê-la. Os EUA assinaram um tratado sobre energia nuclear ofensiva com a Índia, na fronteira com o gigante amarelo, aumentando o clube atômico militar aliado. Os povos precisam ser mais argutos e não se deixarem embair.

A espionagem norte-americana tem dimensão universal. Essa loucura é controlável? Tem sido exitosa? Quem lhes deu o direito de nos bisbilhotar e invadir a nossa privacidade? Um homem de ética superlativa como Snowden denunciou ao mundo a traição estadunidense aos direitos fundamentais de todos os seres humanos. Está sendo, por isso, caçado como uma fera. E só por isso Evo Morales entrou neste artigo. Tenho para mim que Snowden tem toda razão. Ele desnudou a desfaçatez norte-americana. Motivos de segurança interna dos EUA? Estão interferindo na vida de muitos países e de todas as pessoas. Quem lhes garantiu que se livrariam dos revides dos nacionais de países que perderam mulheres, crianças e idosos civis, seus entes queridos, nas “guerras americanas” com os tais “efeitos colaterais”, em busca de seus interesses econômicos, políticos e estratégicos?

Os americanos civis correm riscos ao se deslocarem pelo mundo por culpa de seus governos. Com o aumento das tecnologias passam a ser ameaçados dentro de casa. No futuro, armas químicas e venenos poderão ser usados para causar tragédias no território estadunidense. Está na hora de mudarem as atitudes. Aliás já começaram. Mas o medo persiste. Veremos os EUA exagerar na doutrina da “segurança nacional” por muito tempo. Nada disso estaria ocorrendo se dessem ouvidos à sabedoria dos nossos avoengos: “Quem tem telhado de vidro não atira pedra ao do vizinho”; “Quem muitas pedras atira ao ar, alguma lhe cairá à cabeça”; ou ainda “Boa romaria faz quem em sua casa vive em paz”.

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