Ingênua política nacional

Somente os tolos e os ignorantes acreditam que os partidos se interessam por cargos para ajudar o governo.

Este artigo é dedicado ao excelente colunista Jaeci Carvalho, cuja sincera amizade muito me honra.

O povo em geral tem pela política um sentimento paradoxal. A julgar corrupta por natureza, mas gosta de participar e votar. E vota em líderes populares, a favor dos pobres, coisa que vem desde Getúlio. À medida que o país cresceu a partir da abolição da escravatura, da imigração europeia e da industrialização bancada pelos barões do café, por força da substituição das importações causada pela 1ª Guerra Mundial, as camadas sociais mais baixas avultaram e se tornaram decisoras eleitorais, impelidas pelo rápido êxodo urbano e a explosão industrial (de industrialização tardia, o Brasil foi o país que mais cresceu nessa atividade entre 1908 e 1978, em termos absolutos). Em 70 anos, de país agrícola tornou-se industrializado. O resultado está à vista. Em 2010, 90% da população vivia em cidades, incluídas as periferias, com baixa qualidade de vida e pouca educação. A terceira etapa do nosso evolver está por vir (consolidação urbana e inserção no mundo globalizado) e não há nem a construção da infraestrutura do país nem um plano estratégico do Estado (se estatista ou indutor da economia). Somos uma nau sem rumo, cujo lema maior parece ser limpar a miséria que ainda resta nos porões. É muito pouco neste século 21, em que o eixo geopolítico desloca-se para a Ásia, e a China impõe novos paradigmas econômicos, desafios comerciais e logísticos à União Europeia, EUA e demais emergentes.

Voltemos ao voto e a seu maior protagonista, o povo brasileiro, urbano e citadino. Os governos democráticos, após período castrense ditatorial de 21 anos, são governos de coalizão em que o Executivo cativa as massas e o Legislativo é ocupado pelas elites regionais, a se agruparem à volta do poder central. Os governadores resultam de coalizões regionais que se compõem com o poder central. Presidencialismo de coalizão e federalismo de adesão, em síntese, menos em São Paulo e às vezes em Minas. Os partidos, salvo o PDS, o DEM e o PSDB, são iguais e adesistas.

A politicagem generalizada comanda o país e engana o povo. A presidente, em que pese estar desmontando a máquina de corrupção existente, ainda é refém do sistema. O presidencialismo de coalizão e o municipalismo desavergonhado engolem o dinheiro público de vários modos, a saber: a) nas compras superfaturadas; b) nas propinas para resolver as questões sem problemas ou para superá-los, mormente se exigem alterações regulamentares e legislativas; c) nos empregos que a burocracia oferta; d) nos contratos adrede combinados; e) nas concessões cartelizadas; f) nos adendos contratuais; g) nas campanhas publicitárias; h) nos patrocínios culturais, artísticos e esportivos; i) nas benesses que o controle das estatais possibilitam, daí a luta surda por diretorias; j) na distribuição de verbas aos movimentos sociais (nunca se viu uma União Nacional dos Estudantes tão comportadas) e empanturrada de verbas governamentais; k) no estranhíssimo conúbio das organizações não governamentais com o dinheiro dos órgãos governamentais.

Ora, se as ONGs são “repartições públicas” deixam de ser não governamentais. São mais de 50 mil mamando nas tetas do governo. São o mais novo canal de desvio de dinheiro público. Certo andou Aldo Rebelo: “Não tenho nada contra as ONGs, apenas acho que é próprio do governo relacionar-se financeiramente com os órgãos governamentais”. Gilberto Carvalho, homem forte do governo, ficou abespinhado: “Sem as ONGs não conseguiríamos fazer políticas sociais”. É dizer: o governo depende de quem não é governo. E paga para que atuem. Não seria melhor torná-las governamentais e controláveis? Sairia mais barato.

A classe média cresce e se esclarece. É a nossa esperança. Somente os tolos e os ignorantes acreditam que os partidos se interessam por cargos para ajudar o governo. Os partidos querem tirar partido, isso é, aproveitar-se do governo para furtar. É do governo que sai o dinheiro para os bolsos dos políticos e para financiar as campanhas, cada vez mais dispendiosas. E tem mais: parte do empresariado, igualmente, se locupleta do sistema, como jamais se viu nesse país. Articulista de renome, após apontar a bica aberta do BNDES, por onde mina o dinheiro barato (6,5% ao ano) a financiar a livre iniciativa, referiu-se ao fato asqueroso de ministros corruptos caindo e protestando inocência, um após outro, em quase onze meses de governo: “Em qualquer outro lugar já se teria dito com todas as letras e com a ênfase necessária que o governo apodreceu”. Aí vem outro e diz: “Bobagem, o povo apoia o governo”. É uma democracia feita de esterco e mortos-vivos. Vamos criar o Dia dos Zumbis Políticos do Brasil.

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