Geopolítica e geoeconomia

“Maniqueísmo não combina com democracia, serve hipocritamente aos negócios, principalmente os armamentistas e os petrolíferos”

Mapa europeu

Fonte: Platamo Editora

A voraz investida do bloco EUA-UEE sobre a Ucrânia e a península estratégica da Crimeia ocasionaram três reações geoeconômicas de alto impacto e importância geopolítica. Primeiro, a anexação pela Rússia da Crimeia, após fulminante plebiscito em que 92% dos habitantes se manifestaram a favor. Em segundo lugar, a aceleração da união euroasiática (Rússia, Irã, China), e em terceiro, o tratado de fornecimento do gás russo à ascendente segunda potência econômica do mundo, a China.

Putin foi a Shangai discutir, a pedido do secretário geral do PC chinês, a formação de um bloco de cooperação para a segurança da Ásia, incluindo a própria China, o Irã e a Rússia, que acrescentou o Casaquistão e a Bielo-Rússia à união. Mas com a exclusão dos EUA cada vez mais intromissivo no sudeste asiático, com alianças sub-regionais (Austrália, Japão, Taiwan, Coreia do Sul, Filipinas). No fundo, trata-se do bloco euroasiático a ganhar maior concretitude. Mas Putin, astutamente, não arredou o pé de Shangai sem o acordo de fornecimento do gás à China por 30 anos.

A Rússia investirá US$ 55 bilhões para cumprir o contrato, e a China, ao menos US$ 20 bilhões. Os planos preveem a construção de um duto que ligará o nordeste da China a outro que carrega gás do oeste da Sibéria até o porto de Vladivostock, no mar do Japão. O desenvolvimento de um centro de gás no Pacífico permitirá à Rússia exportar para mercados ricos como Japão e Coreia do Sul. “Sem nenhum exagero, será o maior projeto de construção no mundo nos próximos quatro anos”, disse Putin.

O símbolo alado da Rússia é uma águia branca de duas cabeças. Uma olha à oeste e outra à leste. No setentrião, ela une o Ocidente e o Oriente (Eurásia), dominando 2 terços da calota ártica, acima da Europa, da Ásia e das Américas. A Rússia tem centenas de ogivas atômicas, domina o ciclo nuclear, os submarinos nucleares, os mísseis intercontinentais e a tecnologia das viagens espaciais. Sua importância geoestratégica é maior que o seu PIB, a merecer também atenção.

O acordo de US$ 400 bilhões para fornecimento de gás, garante ao maior consumidor de energia do mundo uma nova grande fonte de energia limpa, abrindo um novo mercado para Moscou, em um momento no qual a Europa busca outras origens para a compra de energia (segundo os analistas, bem difícil, por razões contratuais, os arranjos logísticos, os grandes volumes envolvidos e os custos muito mais elevados). A águia de duas cabeças olha para o Ocidente com o desejo de ser uma parceira confiável. A Rússia precisa da Europa Ocidental, e esta, daquela.

Os obstáculos a vencer são a mútua desconfiança e a agressividade da OTAN, que quis tomar as bases na Crimeia a baixo custo e não conseguiu. O abacaxi a descascar é outro: restaurar o Estado ucraniano, recriá-lo federal, com duas línguas, como sempre foi, ou então libertar o leste da incompetência atual criando outro Estado, como ocorreu no Kosovo, com as bênçãos de Washington. Lavrov, chanceler russo, vai dedicar-se a normalizar as relações da Rússia com a Europa e a Ucrânia, que deve uma fortuna a Moscou.

O novo presidente legitimado pelo voto, disse que gostaria de ser vizinho da Suíça, mas que não é possível ignorar a Rússia nas fronteiras. Basta fazer como a Finlândia e não filiar a Ucrânia à OTAN, nem criar uma “Irlanda do Norte” no leste ucraniano. A solução é uma república federal.

É preciso respeitar a diversidade (eu, por exemplo, detesto os aiatolás) e parar de dividir o mundo entre os bons (EUA) e os maus (eleitos interessadamente por Washington). Maniqueísmo não combina com democracia, serve hipocritamente aos negócios, principalmente os armamentistas e os petrolíferos. A Rússia é o país de maior extensão territorial do globo. Está presente desde o mar Báltico, no Atlântico, até o Pacífico, em ilhas ao norte do Japão. Sua geopolítica é simples: (a) preservar a eurásia russa; (b) juntar-se à Europa Ocidental, sem a ela integrar-se, multiplicando ao máximo os lucros de sua economia e, (c) preservar-se do “expansionismo” dos EUA por meio da OTAN. Bush (pai) assegurou a Gorbachev que os EUA não levariam a OTAN, além do território alemão para apressar a unificação alemã, mas agem em contrário. Putin preocupou-se sobre o cerco que seria uma Ucrânia na OTAN, usando suas bases na Criméia. É compreensível a rapidez com que agiu. Sua aprovação subiu para 82% internamente.

O Ocidente aprendeu que é preciso “combinar com os russos” suas movimentações no Leste Europeu e na Eurásia. Quem convenceu o Irã, se não a Rússia, da inutilidade de construir e utilizar um arsenal atômico facilmente destruível pelos EUA e Israel, em troca da velada proteção militar dos russos, extensiva aos chiitas e alauitas da Síria? O plano frustou mais um avanço armado de Israel na região eurasiana, e, de sobra, enfraqueceu os terroristas sunitas que lutam na Síria. A Al-Qaeda, o Talibã e a Irmandade Muçulmana são sunitas, antiocidentais e contrários à Rússia. A estratégia de Moscou é precisa.

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