Chineses e seus slogans

A China não tem dívida pública externa e suas reservas em moedas fortes beiram os US$ 4 trilhões.

De longa data, os chineses costumam fixar slogans para as suas políticas. Mao, por exemplo, criou “O grande salto” (e fracassou). Xiaoping, o pai da China moderna, inventou o “socialismo de mercado” e fez um jocoso chiste: “Não importa a cor do gato, o que interessa é que ele coma os ratos”.

O gato de Xiaoping é voraz. Entre 1982 e 2014 a China se tornou a 2ª potência do globo. Sugerem os analistas que crescerá 7% em 2015. Uns tolos acham que é pouco, pois já cresceu a 11% ao ano. Esquecem que 7% sobre um PIB de US$ 11,2 trilhões é muito mais crescimento que 11% sobre os 2 trilhões dos anos 90.

A China ultrapassará os EUA, que não engatam 3% ao ano faz muito tempo. Em 2020? Isso é desimportante, embora fatal e inevitável. Os chineses lidam com o tempo há 6 mil anos com paciência e meticulosa persistência.

Agora surgem novos slogans conjugados e repetidos à exaustão (comunicação social de massa – 1 bilhão e 350 milhões de pessoas). São: primeiro — “Produzir e consumir”. Stephen Roach, do Morgan Stanley e do Institute of Global Affairs da Universidade Yale, reporta: “A demanda doméstica está prestes a ganhar vida de uma forma que nunca vimos”.

Segundo — “Aproveitemos o petróleo barato”. A China tornou-se em 2014 a quarta maior produtora de petróleo do mundo, mas precisa importar. Com os preços deprimidos, pode comprar dos russos e iranianos e dinamizar a economia poupando suas reservas de óleo, gás e carvão. Ela cortará os subsídios domésticos, afirma Derek Scissors, do American Enterprise Institute de Washington, sem aumentar os custos de produção de suas empresas.

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A China não tem dívida pública externa, e suas reservas em moedas fortes beiram os US$ 4 trilhões. […] Os produtos chineses estão no mundo inteiro e cada vez mais. Falta resolver a dívida pública interna corporis estimulando a poupança. / Foto de Dennis Jarvis

Terceiro — “Crescimento e bem-estar”. O sistema Hakon de registro de famílias em cidades de portes pequeno e médio nega a certos cidadãos acessos a serviços públicos de medicina e educação, forçando-os a poupar para comprá-los. A China quer universalizar o acesso aos sistemas de educação e saúde, o que liberará poupanças para o consumo. Quando se pensa em 1 bilhão e trezentos milhões de pessoas, o fator é relevante.

Quarto — “Ondas de privatizações”. Segundo estudo do Deutsche Bank, as ondas privatizantes começadas em 2014 crescerão de tamanho e frequência em 2015/16. Governos locais procuram vender suas propriedades, apartamentos, usinas, rodovias e empresas estatais a particulares, nacionais e estrangeiros, a preços convidativos. Mais de 10 milhões de negócios novos foram registrados de março a novembro de 2014 (recorde). As privatizações visam aumentar a produtividade e a concorrência da “nova economia” voltada ao mercado interno, prioritariamente.

Quinto — “Cenário claro”. A recuperação da economia americana (US$ 16 trilhões), com baixíssima inflação e a ameaça de deflação na União Econômica Europeia (UEE) forçarão as exportações chinesas a chegar a esses mercados mais baratas (O Banco Central chinês mantém o câmbio colado no dólar, difícil para as importações). O hábito de estocar já se foi. Agora, é “just in time”. É hora de desvalorizar o yuan para incentivar as exportações.

Sexto — “Dívidas podem ser roladas”. David Levin, do Departamento do Tesouro dos EUA (sênior), acha que a população em idade ativa está caindo ano a ano, devido a velha política do filho único. Novos serviços surgem todos os dias para a população agora valorizada e envelhecida (aposentadoria só aos 70 anos). O medo da inadimplência no setor imobiliário e bancos diminuiu com técnicas de rolagem. O Banco Central e o governo estão fazendo um grande esforço para fazer circular a liquidez do sistema de pagamentos. Se tiverem êxito, o crescimento econômico se autorregula e os resultados serão benignos para resolver os débitos em atraso em favor dos bancos (elevadíssimos).

Agora, o mais importante. A China não tem dívida pública externa, e suas reservas em moedas fortes beiram os US$ 4 trilhões. O tempo deu razão ao cáiser Guilherme da Prússia. “Os amarelos trarão seus cavalos para pastar às margens do Rio Spree.” Noutras palavras, o “Império do Meio” recobrou o seu brilho. Os produtos chineses estão no mundo inteiro e cada vez mais. Falta resolver a dívida pública interna corporis estimulando a poupança.

Nesse ponto, o Padre Teilhard de Chardin, genialíssimo, deixou-se levar pelo “europeísmo” do seu tempo. Para ele, a China havia para sempre se colocado à margem da história, perdida nas complicadas formas de suas escritas e esculturas infinitamente detalhadas. Ledo engano. A antropologia evolutiva é diversa da sociologia econômica. A China de 2015 que o diga.

Cada ciência tem metodologia própria. Conhecê-las sem confundir-se é o que importa. Para um PIB de US$ 12 trilhões, aproximadamente, em 2015, crescer mais de 7% ao ano é impossível. Nem os EUA, com 320 milhões de habitantes, conseguem chegar a 3,5%, algo espetacular, quando e se acontecer, pois 80% do seu PIB é de serviços, principalmente financeiros.

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