Brexit, a mancada

Estamos prestes a assistir a mais um império de outrora ruir e se tornar um simples país

Os ingleses, cuja economia está um tico atrás da França, embora conte com uma zona comum, pois o Reino Unido é um consórcio (Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda do Norte) e têm relações especiais com o Canadá, onde a rainha da Inglaterra reina e indica o governador, embora quem mande seja o primeiro-ministro (indicado por Parlamento eleito), Austrália e Nova Zelândia. Ainda assim, é uma sombra fantasmagórica do que já foi enquanto império com possessões na África, Índia, e Ásia amarela.

Ao se dar ao luxo de afastar-se da União Europeia de Nações (UE), um mercado comum de 460 milhões de pessoas, o maior do mundo depois da China (1 bilhão e 360 milhões de consumidores e produtores de bens e serviços), a velha Albion demonstrou falta de realismo e hipervalorização de sua relação com os EUA. Os meses de março e abril de 2019 entrarão para a história.

Brexit, a mancada

Mas quem disse que a ex-colônia, os EUA, vai mimar e gastar sem retorno na sua ex-metrópole? Os maiores bancos do mundo estão alertando que não tem volta a saída do Reino Unido. Os bancos na UE podem operar em todo o espaço político do bloco sem nenhuma burocracia, com uma moeda comum, o euro. Com o Brexit, as sedes bancárias e as operações estruturadas em Londres migrarão em massa para Paris e Frankfurt. O Bank of América (Bofa) imagina transferir para Dublin (Irlanda) algo em torno de US$ 50 bilhões e 500 funcionários. O resto vai para Paris. A Ford avisou à premiê Thereza May que pretende levar sua produção para fora do Reino Unido, onde emprega 13 mil pessoas.

Para os americanos operar na UE a partir de Londres era preferencial, a começar pela língua comum e pela grandeza financeira da City londrina, onde todos operavam. A Ford, entretanto, tem no Reino Unido seu terceiro mercado de vendas. Deve deixar fábricas lá, mas terá custos mais elevados. As empresas de todos os tipos estão preocupadas com May e com o Parlamento inglês. Até parece que o Brexit não tem a gravidade que realmente tem.

O premiê da Holanda, Mark Rutte, se diz preocupado, pois o Reino Unido lhe parece desinteressado de um divórcio negociado com a UE. Para ele, um Brexit sem acordo seria devastador, com problemas insuperáveis para a economia do Reino Unido. E la nave vá!

A outrora Rainha dos Mares, entretanto – percebe-se – deseja que Bruxelas resolva sozinha seu caso, pois já sabe porque pesquisou e anotou todos os pontos relativos ao Brexit. A UE está é com raiva e será dura.

Fabricantes de carros e outras empresas vêm alertando que um Brexit sem acordo pode trazer, com tarifas mais altas, interrupções nas cadeias de suprimentos e cortes de empregos.

“Seria uma situação catastrófica para a indústria automobilística do Reino Unido e para as operações de manufatura da Ford no país”, disse o presidente da Ford em comunicado. “Vamos tomar todas as medidas necessárias para preservar a competitividade de nossos negócios na Europa”.

Os maiores bancos do mundo estão alertando que não haverá volta para as medidas que estão tomando para administrar a potencial desestabilização representada pela saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit, que deverá custar centenas de milhões a cada um deles.

Bancos de países da UE têm permissão para operar no mercado comum do bloco. Com a saída do Reino Unido, sedes e operações que hoje ficam no país terão de ser realocadas para a UE, se não houver um acordo sobre o Brexit. Frankfurt, na Alemanha, e Paris, França, serão as cidades europeias que se tornarão centros financeiros na Europa, substituindo Londres. Ingleses e países anglófonos terão que aprender francês (que detestam, embora se encantem por Paris).

Muitas reviravoltas estão – no rastro do fiasco de May – tomando corpo. A Nissan disse ter abandonado planos de produzir um novo modelo no Reino Unido, alegando incertezas relacionadas ao Brexit. Preferem a terra firme do continente europeu e as facilidades daí decorrentes. Para completar, o Parlamento britânico, agora, ao apagar das luzes, diz que Brexit, sem acordo, não é aceitável. Ora essa, em que balburdia está a velha Albion.

Estamos prestes a assistir a mais um império de outrora ruir e se tornar um simples país. Prudência e poderio são fundamentais. A China parece reunir essas qualidades. Os Estados Unidos creem apenas em poderio. A história é mestra. Os próximos 30 anos prometem muitas surpresas. Nós, nos tornaremos potência média ou nos condenaremos a ser, para sempre, uma nação do terceiro mundo.

A história é fascinante. No futuro, os historiadores haverão de destacar o Brexit, suas causas e consequências, não como especulações, mas como fatos consumados.

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