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Neste artigo dou repercussão ao estudo de André Lara Resende (Valor de 4 de maio). A economia mundial mudou radicalmente e três campos de luminares da ciência econômica se formaram após 2009 (crise do subprime), quando capitais fartos rodavam o mundo e uma década inteira de crescimento chinês a taxas superiores a 10% ao ano favoreceu as commodities minerais e agrícolas em favor de países como o Brasil, exportadores de produtos primários e semi-industrializados (ressalvem-se veículos automotores, os aviões da Embraer, os fármacos e os eletrônicos de Manaus).

O que vemos hoje? A China desacelerando para crescimento entre 5% e 7% ao ano; o Japão estagnado há 18 anos, a Europa Ocidental quase parando, os EUA instáveis e os emergentes em crise.

Diz Lara Resende que o trabalho nas economias avançadas mostra fraqueza e alto desemprego, mesmo nos EUA, onde a legislação trabalhista é flexível. Lá o desemprego caiu pela metade desde o pico da crise, mas está no nível mais baixo em 36 anos. A dívida pública dos EUA de 120% do PIB de US$ 16 trilhões só não derruba o país porque eles têm poder de imprimir dólares.

Quanto às commodities, bastou a desaceleração chinesa para induzir queda brutal nos preços, fulminando os emergentes. As balanças comerciais, como a do Brasil, voltaram a ser deficitárias, a exigir desvalorização cambial para ficarem positivas.

Eis as três correntes pós-crise. A de Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, a da estagnação secular. Os países sofrem porque a demanda não é suficiente para absorver o que pode ser produzido pela capacidade já instalada se os juros forem positivos, daí as taxas zero ou negativas nos EUA, Europa e Japão.

A solução seria o quantitative easy (QE), feito pelos EUA e CEE (jogar dinheiro no mercado para evitar a deflação e estimular o consumo e consequentemente maiores preços — inflação) impondo subida dos juros básicos pelos bancos centrais. Mas o Japão, que fez o mais radical QE, com Shinzo Abe, continua estagnado. Os EUA, instáveis (sobe um mês, desce no seguinte) e a Europa parada reforçam a tese.

A segunda corrente acredita que o juro real negativo, por não ser atrativo (Ben Bernanke), faria o consumo regularizar-se. Mas o que se está observando é coisa diferente. O juro negativo gera busca por bens que substituam a moeda como reserva de valor.

A demanda é por ativos irreproduzíveis — obras de arte, ouro, propriedades líquidas, minas de nióbio. Se as incertezas são grandes e as perspectivas de crescimento instáveis, o juro negativo não estimularia o consumo, mas a busca de ativos não sujeitos à desvalorização das moedas.

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O que vemos hoje [na economia mundial]? A China desacelerando para crescimento entre 5% e 7% ao ano; o Japão estagnado há 18 anos, a Europa Ocidental quase parando, os EUA instáveis e os emergentes em crise. / Foto do site 401(K)

A terceira corrente é de Paul Krugman, do New York Times e Prêmio Nobel. A saída da crise estaria no aumento do gasto público. Diz Lara Resende: “A proposta de aumento dos gastos públicos pressupõe que a relação dívida pública / PIB, já alta nos países avançados, não seja problema. Se o aumento da dívida pública for percebido como sinal de aumento dos impostos, haverá redução dos gastos privados, resultado conhecido como o da Equivalência Ricardiana. Quando o Estado se tornou tão complexo que a gestão eficiente parece ser inviável, quando o Estado já absorve quase 40% da renda nacional, a proposta de sair da estagnação pelo aumento dos gastos públicos seria questionável. Os três campos parecem enfrentar dificuldades teóricas e práticas. Há muitas dúvidas e muitas perguntas em aberto. É possível voltar a crescer ou o baixo crescimento agora é regra? Existem limites para a política monetária? Os juros nominais zero e o QE evitaram a depressão, mas serão capazes de reestimular a economia?”

A análise é brilhante e as perguntas inquietantes. Foi justamente o excesso de gasto público que elevou nossa dívida pública para 68%do PIB e a oferta de crédito, que enfartou 50% das famílias brasileiras, hoje à beira da inadimplência, como fizeram Lula e Dilma.

E aduz que, no caso do Brasil, a coisa é diferente. “O caso das economias menos desenvolvidas, que não atingiram a fronteira tecnológica e têm carências evidentes de consumo, o problema da insuficiência de demanda, tão clara nos países do Primeiro Mundo, não se faz sentir. A restrição premente é pelo lado da oferta. Para esses países, a questão central não é — como equivocadamente se insistiu nos últimos anos no Brasil — a de estimular a demanda, mas como incorporar tecnologia moderna, educar a força de trabalho, estimular a criatividade e o empreendedorismo”.

Pessoalmente diria que o ajuste econômico e a contenção do gasto governamental evitarão o estouro da dívida pública (68% do PIB). O crescimento virá com mais capitalismo e a privatização das obras de infraestrutura. O nosso problema são os fundamentalistas petistas. É preciso anulá-los. São fanáticos defensores do intervencionismo estatal.

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