A crise

A América do Sul está no dever continental de se posicionar, retirando de Macron o papel autoatribuído de síndico da questão climática

O surto europeu, a partir de Macron, contra os incêndios que sempre existiram na Amazônia, é uma jogada cínica. A Europa e a Ásia, antes cobertas por exuberantes florestas, nunca deixaram de respirar após destruí-las. Vivem numa Eurásia pelada, salvo as florestas da Rússia Siberiana, junto com o Canadá, que preservam suas florestas no solo ártico.

Basta saber que a Sibéria vai do Oceano Atlântico Norte até o Pacífico, ao Norte do Japão, sob domínio russo. O hemisfério norte, extremamente poluidor – carvão, petróleo, gás e lixo –, polui tanto quanto a Ásia. As Américas Central e do Sul e a África poluem menos e possuem muito mais florestas, desde o Caribe, passando pela Amazônia e terminando na Patagônia, sem falar no Sudeste asiático.A crise

O debate sobre a Amazônia envolve as Guianas, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Brasil e Paraguai, que devem se organizar. Macron, o mais vaidoso e prepotente dos franceses (um grande país), deu de soltar pitacos sobre o assunto, para livrar-se ou desviar a atenção de seus problemas internos. Dois passos devem ser dados com o Brasil nas lideranças: o Foro Sulamericano da Amazônia, reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) e um programa multicientífico sobre a exploração (comercial e turística) da região.

O bate-boca é tipicamente uma mania comum de franceses e brasileiros, e isso ressalta os rumores publicados pela grande imprensa, além da estranhável ausência das chancelarias no trato do assunto. Outra coisa, além do protagonismo de Macron e Bolsonaro (e sabendo que dois bicudos não se beijam), é a banalização do assunto, surgido, vamos dizer assim, do nada! Todos os anos essas queimadas ocorrem, espontâneas ou propositais, para preparar os terrenos, que o vento faz extrapolar, crítica que atinge a falência do sistema brasileiro de contenção e controle de queimadas. Isso não se pode negar.

Contudo, na Amazônia cabem seis Franças inteiras. Reprimir incêndios na França, Portugal e Espanha é muito menos complexo, mas dá um grande trabalho. Imaginem no Brasil, com enormes distâncias e ecossistemas. Não há, pois, como negar a negligência do governo brasileiro, bem como a intromissão de Macron, um sujeito vaidoso, sempre em busca de protagonismos. Os foros internacionais são mais adequados.

Agora, colocar as esposas e chamar a primeira-dama francesa de mico-leão-dourado ofende, vulgarmente, uma senhora de respeito e nos coloca como moleques, uma vez que a “molecagem” passou a ser no Brasil prática de governo, o que é de se lamentar muito vivamente.

A América do Sul está no dever continental de se posicionar nesta matéria, retirando do francês o papel autoatribuído de síndico da questão climática. Está na hora de Trump alegar a doutrina de Monroe, que pugnava de boa-fé ou não — não importa — “A América para americanos, sem intromissão europeia”. Se a moda pega, complicaremos ainda mais a expansão das relações do Brasil com a União Europeia (Macron fez de um tudo para anular o tratado, recentíssimo). Notre Dame também pegou fogo. Houve solidariedade e não críticas mordazes. Macron, apague seu fogo noutro lugar.

Quem se alteou como líder do continente foi o presidente Piñera, do Chile. Esteve em Paris, Brasília e Washington. O que se desenha é uma união mais estreita da Organização dos Estados Americanos (OEA) com a China e os Estados Unidos, envolvendo laços econômicos e paz política. Países tradicionalmente amigos, França e o Brasil devem se dar as mãos. O tempo passa e Bolsonaro, o furioso, deixará de ser presidente do Brasil.

É verdade que pugnamos no passado, quando fomos colônia lusitana. Os portugueses expulsaram os franceses do Rio de Janeiro (queriam fundar a França Antártica) e dominar o Atlântico Sul, para bloquear ingleses e holandeses, após a hegemonia de Portugal na África Ocidental, na Guiné, Cabo Verde, Ilhas da Madeira e Açores, além de Angola (África) e o leste da América do Sul (Brasil). Chegaram a se estabelecer no Maranhão, cuja a capital até hoje traz o nome do rei da França, Luiz ou São Luiz, o rei católico. Foram também de lá expulsos militarmente. “Vive le France!” Os Calmons, ao cabo, vieram de Cahors para Portugal e Brasil.

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